Ambientalistas temem retrocessos ambientais no Chile com governo Kast

Ativistas e comunidades indígenas alertam para riscos à água e à biodiversidade no norte do país diante da promessa de flexibilização de licenças ambientais para estimular investimentos

A vitória do presidente chileno José Antonio Kast, líder da direita conservadora no país, acendeu o alerta entre ambientalistas, comunidades indígenas e organizações de conservação. No norte do Chile, especialmente na região de Arica y Parinacota, cresce o temor de que o novo governo reduza proteções ambientais para favorecer investimentos estrangeiros e ampliar atividades de mineração. As infomações são do The Guardian.

A região, localizada no extremo norte do país, é conhecida por seus ecossistemas frágeis de altitude e por ser porta de entrada para o deserto do Atacama, um dos lugares mais secos do planeta. O turismo ecológico e a agricultura dependem diretamente da água que desce das montanhas andinas, mas moradores dizem que esse equilíbrio pode estar ameaçado.

Andrea Chellew, de 62 anos, mantém um café na rodovia que liga o Chile à Bolívia. O estabelecimento costumava receber turistas que visitavam as paisagens andinas e o Parque Nacional Lauca, mas o movimento caiu nos últimos meses, em meio a relatos de novas explorações minerais perto de áreas protegidas.

Lhamas no Parque Nacional Lauca, Chile (Foto: WikiCommons)

Segundo Chellew, a água das montanhas é essencial para toda a região. “As terras altas são a fonte da vida. Toda essa água desce para os vales e para o litoral. Se as atividades de mineração avançarem, teremos um problema muito sério”, afirma.

A preocupação é compartilhada por representantes indígenas. Marcela Gómez Mamani, integrante da comunidade aimará de Umirpa e conselheira regional, afirma que a principal ameaça é a disputa por recursos hídricos.

“A maior preocupação é a água. Se as perfurações continuarem perto das fontes, não teremos água para agricultura, pecuária ou turismo”, alerta.

Na área próxima à cidade de Camarones, a empresa chilena Andex Minerals tem realizado explorações em busca de cobre e outros minerais. Moradores locais afirmam que as perfurações ocorrem perto de áreas que abastecem comunidades andinas, o que gera apreensão.

O debate ocorre em um país onde a mineração tem peso central na economia. O setor responde por mais da metade das exportações chilenas e representou cerca de 20% da receita do Estado em 2021. Grande parte dessa atividade está concentrada justamente nas regiões do norte.

Para o economista Fernando Cabrales Gómez, professor da Universidade de Tarapacá, o setor é fundamental para o país. “A mineração representa mais da metade das exportações do Chile e é o único setor industrial com produtividade comparável à de países desenvolvidos”, afirma.

Ao mesmo tempo, comunidades locais lembram os impactos históricos da atividade. Em Arica y Parinacota, resíduos tóxicos deixados por empresas estrangeiras nas décadas passadas provocaram contaminação por metais pesados e problemas de saúde.

Estação Chinchorro, de Arica, no Chile (Foto: WikiCommons)

Luz Ramírez, presidente da fundação Mamitas del Plomo, diz que centenas de famílias ainda convivem com as consequências da poluição. “Tem sido uma luta longa e dolorosa. Precisamos de um governo comprometido com a proteção ambiental”, afirma.

Além da mineração, o acesso à água é tema central no debate ambiental chileno. O país possui um dos sistemas de gestão hídrica mais privatizados do mundo, baseado no Código de Águas criado em 1981 durante a ditadura de Augusto Pinochet. A legislação permitiu que empresas e indivíduos adquirissem direitos permanentes sobre o uso da água, que podem ser comprados e vendidos.

Embora reformas recentes tenham limitado esses direitos a períodos de 30 anos e priorizado o consumo humano, especialistas afirmam que ainda há desigualdades no acesso ao recurso.

A pressão sobre a água tende a aumentar com as mudanças climáticas. Relatórios do Ministério do Meio Ambiente indicam que as temperaturas nas regiões andinas podem subir entre 2 °C e 6 °C até 2080, enquanto as chuvas podem diminuir até 30%, afetando diretamente rios, aquíferos e zonas úmidas de altitude.

Nesse cenário, organizações ambientais dizem que o ativismo deverá mudar de estratégia nos próximos anos. Segundo Lorena Arce, do Observatório Cidadão do Chile, o foco passará da criação de novas políticas para a defesa das proteções já existentes.

“Nos próximos anos, o movimento ambiental provavelmente estará mais voltado a defender conquistas já obtidas do que a promover novas iniciativas”, afirma.

Enquanto isso, comunidades do norte chileno observam com cautela os primeiros passos do novo governo, temendo que a busca por crescimento econômico aumente a pressão sobre recursos naturais já escassos.

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