Bases suspeitas em Cuba oferecem à China boas condições para espionar os EUA, aponta relatório

Imagens registradas por satélites mostram o que seriam quatro instalações possivelmente usadas por Beijing para interceptar inteligência

Em junho de 2023, o governo dos EUA acusou a China de operar desde 2019 uma base de espionagem em Cuba, onde Beijing teria instalado escutas eletrônicas e outros equipamentos para coleta de inteligência. Nesta semana, o think tank Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) fez novas revelações sobre o caso, identificando não apenas um, mas “quatro locais ativos” de onde o governo chinês possivelmente “conduz operações de vigilância eletrônica”.

Segundo os analistas que realizaram a investigação a partir de imagens feitas por satélites, a suspeita é a de que Beijing coordene a partir da ilha uma operação de inteligência de sinais (SIGINT, na sigla em inglês). Ela é caracterizada pela “coleta, análise e exploração de informações de sinais eletrônicos interceptados, incluindo sinais de comunicação e não comunicação, para fins de inteligência”, fornecendo ao país ativo “informações valiosas sobre seus adversários, concorrentes e aliados.”

O estudo afirma que a escolha de Cuba como possível base de operações não poderia ser melhor. “Para Beijing, ter acesso às capacidades de SIGINT em Cuba abriria uma janela de inteligência significativa inacessível de dentro do território chinês”, diz o texto.

Bandeira cubana do alto de Havana (Foto: Andrew Wragg/Flickr)
As quatro possíveis bases chinesas

A base mais destacada fica em Bejucal, que tem vista para Havana e há anos é alvo de suspeitas por parte do governo dos EUA. Imagens de satélite deste ano analisadas pelo CSIS indicam que a área onde se suspeita que a China tenha se instalado passou por grandes reformas na última década, “indicação clara de um conjunto de missões em evolução.”

Do outro lado da ilha foi identificada outra possível base de SIGINT, em uma área conhecida como “O Salão”. Ainda em construção, ela ocupa posição estratégica porque oferece uma vista da Estação Naval da Baía de Guantánamo. Até então não havia indícios de sua existência.

Quando estiver plenamente ativa, se de fato a China operar a partir dali, o local “servirá como uma ferramenta poderosa para aumentar a conscientização do domínio aéreo e marítimo na região, onde os militares dos EUA e seus parceiros internacionais operam regularmente.”

O terceiro complexo identificado fica perto de Bejucal e é conhecido como Wajay, guardado por um forte esquema de segurança e em expansão ao longo dos últimos 20 anos. A presença de guardas em tempo integral indica que atividades militares são conduzidas ali, e os analistas acreditam que o local serve para interceptação e transmissão de sinais terrestres.

Fecha a lista de bases possivelmente operadas pela China a de Calabazar, que já aparece em documentos não confidenciais dos EUA. Ela tem todas as marcas de um campo de operações SIGINT e ganhou a mais nova de suas antenas em 2016.

Indícios da presença chinesa

A quantidade de equipamento que aparece nas imagens chama a atenção porque Cuba não tem seus próprios satélites nem desenvolveu um programa especial, indício de que os locais identificados pelos analistas são na verdade geridos por um governo estrangeiro.

Segundo o relatório, Beijing poderia obter vantagens estratégicas operando a partir das bases em Cuba. Seria possível, por exemplo, monitorar o tráfego de rádio e interceptar dados entregues por satélites dos EUA direcionados a locais militares altamente sensíveis no sul do território norte-americano.

“Coletar dados sobre atividades como exercícios militares, testes de mísseis, lançamentos de foguetes e manobras submarinas permitiria à China desenvolver uma imagem mais sofisticada das práticas militares dos EUA”, acrescentam os analistas.

Cuba, em troca do espaço concedido à inteligência chinesa, receberia assistência externa crucial em meio à “pior crise econômica desde a queda da União Soviética”, segundo o think tank. “A China surgiu como uma tábua de salvação crítica, fornecendo bilhões em alívio de dívidas e assistência direta nos últimos anos”, afirma o relatório.

Embora não afirme categoricamente que o governo chinês espiona os EUA a partir de Cuba, o CSIS diz haver “sinais crescentes de que a influência econômica e política da China pode estar abrindo portas para seus serviços militares e de inteligência” na ilha.

O think tank avalia, ainda, que “décadas de especulação dificultaram decifrar a realidade dos rumores”, mas destaca uma vantagem inegável das bases de coleta de inteligência: “Mesmo que a China não tenha acesso direto às instalações lá, os dados coletados por contrapartes cubanas poderiam ser prontamente compartilhados com Beijing.”

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