O crescimento acelerado do comércio entre a China e países da América do Sul está reduzindo o impacto das ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a região. Impulsionado pela abertura do porto de Chancay, no Peru, o avanço das trocas comerciais ocorre em meio à crescente demanda chinesa por minerais e matérias-primas estratégicas. As informações são do South China Morning Post.
O porto, financiado majoritariamente por capital chinês e inaugurado no fim de 2024, tornou-se peça central da estratégia de Beijing para garantir cadeias de suprimento industriais dentro da Iniciativa Nova Rota da Seda (BRI, na sigla em inglês, de Belt And Road Initiative), uma iniciativa do presidente chinês Xi Jinping centrada no investimento em infraestrutura e que visa espalhar a influência de Beijing pelo mundo.
Analistas apontam que a nova infraestrutura reduziu custos logísticos e o tempo de transporte marítimo entre a América do Sul e a China, fortalecendo o fluxo comercial mesmo diante de tensões políticas recentes no Panamá e na Venezuela.

Dados da Administração Geral de Alfândegas da China mostram que o comércio bilateral com o Peru cresceu 17,8% no último ano, alcançando US$ 50,96 bilhões, o maior valor já registrado. A maior parte desse avanço veio das exportações de minerais, que representaram 87% das importações chinesas provenientes do país sul-americano.
As importações de minério, escória e cinzas do Peru aumentaram 20,7% em valor, superando US$ 30 bilhões, o que tornou o país o segundo maior fornecedor desses produtos à China, atrás apenas da Austrália. O comércio com o Chile também atingiu níveis recordes, somando US$ 66,9 bilhões, enquanto as trocas com o Equador cresceram 24%, chegando a US$ 17,3 bilhões.
O avanço ocorre paralelamente à tentativa dos Estados Unidos de conter a influência chinesa na região. Trump tem defendido uma estratégia que chama de doutrina “Donroe”, em referência à política do século XIX que buscava limitar interferências externas nas Américas. O presidente norte-americano também prometeu “retomar” o controle do Canal do Panamá e ampliou a pressão política sobre a Venezuela, medidas que provocaram reação direta de Beijing.
Especialistas avaliam que a riqueza mineral da América Latina se tornou central para os interesses estratégicos da China, sobretudo para sustentar sua indústria manufatureira e a transição energética. Quase 75% do consumo chinês de cobre, por exemplo, depende de importações, fundamentais para setores como veículos elétricos, painéis solares e turbinas eólicas.
Em termos operacionais, o porto de Chancay já movimentou mais de 270 mil TEUs e cerca de 1,36 milhão de toneladas de carga a granel nos primeiros três trimestres de 2025. A ligação direta com Xangai reduziu o tempo de transporte para aproximadamente 23 dias e cortou os custos logísticos em mais de 20%.
O Porto de Santos, no Brasil, processa cerca de 4,4 milhões de TEUs por ano, enquanto o porto de Balboa, no Panamá, movimenta aproximadamente 2,5 milhões.
Com capacidade anual de até 1,5 milhão de TEUs, Chancay se consolida como um dos principais hubs logísticos da América do Sul voltados ao comércio com a Ásia, reforçando a presença chinesa na região e redesenhando o equilíbrio geopolítico em meio à rivalidade entre Beijing e Washington.