Favorito pró-Trump despenca na reta final da eleição no Peru

Com 35 candidatos na disputa e crescente desconfiança em relação aos Estados Unidos, campanha de Rafael López Aliaga perde força e expõe riscos de associação política com Donald Trump na América Latina

A poucos dias da eleição presidencial no Peru, o cenário político se tornou ainda mais imprevisível com a queda nas intenções de voto do empresário Rafael López Aliaga, um dos principais nomes da direita e autodeclarado simpatizante de Donald Trump. O movimento reacende o debate sobre até que ponto o alinhamento com o presidente dos Estados Unidos pode influenciar — ou prejudicar — campanhas na América Latina. As informações são da Al Jazeera.

Com um recorde de 35 candidatos na disputa, López Aliaga, conhecido pelo apelido de “Porky”, chegou a liderar parte da corrida eleitoral nos meses anteriores, sustentando uma campanha marcada por discursos de extrema-direita e defesa de maior aproximação com os Estados Unidos. Entre suas propostas mais controversas estavam apoio a ações militares americanas contra o narcotráfico e críticas à influência chinesa no país.

Rafael López Aliaga durante evento conservador na Espanha em 2025 (Foto: WikiCommons)

No entanto, pesquisas recentes mostram uma reversão de tendência. Segundo levantamento do instituto Ipsos, o candidato caiu para cerca de 7% das intenções de voto, sendo ultrapassado por rivais como Keiko Fujimori, que avança na preferência do eleitorado conservador. A mudança ocorre em um contexto de forte indecisão: mais de 20% dos eleitores ainda não definiram seu voto.

Analistas apontam que a associação direta com Trump pode ter perdido força entre os eleitores peruanos. Isso ocorre em meio ao aumento da desconfiança em relação aos Estados Unidos, que já atinge quase metade da população, segundo o Instituto de Estudos Peruanos (IEP). O índice mais do que dobrou desde 2019.

Apesar disso, a eleição não se transformou em um plebiscito sobre o ex-presidente americano. A maior parte dos debates e campanhas tem se concentrado em temas internos, como corrupção, criminalidade e instabilidade política — o Peru teve nove presidentes na última década.

Especialistas afirmam que a estratégia de se aproximar de Trump pode ter efeitos contraditórios na região. Em alguns contextos, o apoio pode reforçar bases eleitorais mais ideológicas, mas também pode afastar eleitores moderados ou indecisos, que rejeitam interferência externa.

A disputa também reflete a tensão geopolítica entre Estados Unidos e China na América Latina. O Peru é um dos principais destinos de investimentos chineses na região, o que adiciona uma camada de complexidade ao discurso eleitoral.

Mesmo assim, López Aliaga manteve uma retórica pró-Trump ao longo da campanha, embora de forma mais discreta nas últimas semanas. Ele chegou a afirmar que, se eleito, buscaria integrar o país a iniciativas de segurança lideradas por Washington.

Para analistas, a retração do candidato indica um possível reposicionamento do eleitorado peruano. Em um país marcado por crises políticas recorrentes e desconfiança nas instituições, a prioridade do voto parece estar menos ligada a alinhamentos internacionais e mais voltada a soluções imediatas para problemas internos.

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