Após anos isolada, ex-líder de Mianmar surge sorridente em novas imagens

Aung San Suu Kyi recebeu visita confidencial do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, em um dos poucos contatos com o mundo exterior desde o golpe militar de 2021.

A ex-líder de Mianmar, Aung San Suu Kyi, reapareceu em um raro contato com o mundo exterior após anos de isolamento. Fotografias divulgadas pelo governo apoiado pelos militares mostram a vencedora do Prêmio Nobel da Paz reunida com um representante do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), em um encontro incomum desde sua prisão após o golpe militar de 2021. As informações são da Associated Press.

Segundo as autoridades, Suu Kyi recebeu na segunda-feira (3) a visita de Arnaud de Baecque, representante residente do CICV em Mianmar. As imagens divulgadas mostram os dois apertando as mãos e conversando em uma sala oficial na capital Naypyitaw.

O governo não informou o local exato da reunião nem revelou detalhes do conteúdo discutido. O CICV, por sua vez, confirmou que um de seus delegados visitou Suu Kyi seguindo os protocolos da organização para pessoas privadas de liberdade e que a conversa ocorreu de forma confidencial.

Cartaz com a imagem de Aung San Suu Kyi durante protestos em Mianmar contra o golpe em 2021 (Foto: WikiCommons)
Primeiras imagens

A divulgação das fotografias representa um acontecimento raro. Desde que os militares derrubaram seu governo eleito em fevereiro de 2021, Suu Kyi praticamente desapareceu da vida pública, permanecendo sob custódia enquanto enfrentava uma série de processos judiciais criticados por governos ocidentais e organizações de direitos humanos.

Nas imagens, a ex-líder aparece sorridente e aparentemente tranquila. Também foram divulgadas fotografias dela cortando um bolo decorado com a mensagem “Feliz Aniversário, Tia Suu”, o que sugere que os registros podem ter sido feitos durante as comemorações de seu 81º aniversário, celebrado em junho.

A visita ocorre em meio ao aumento da pressão internacional para que a junta militar permita maior acesso à ex-líder e avance em negociações capazes de reduzir a crise política que se instalou no país após o golpe.

Membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) têm defendido que Suu Kyi participe de iniciativas de diálogo como parte dos esforços para encontrar uma saída para o impasse político e para o conflito interno que continua afetando o país.

Enquanto isso, Kim Aris, filho mais novo de Suu Kyi, que vive em Londres, tem liderado uma campanha internacional pedindo provas de que sua mãe está viva e em boas condições.

Em declaração à Associated Press, Aris classificou a visita da Cruz Vermelha como um possível avanço.

“Este pode ser um primeiro passo, mas não deve ser o último”, afirmou.

Por que isso importa?

Mianmar enfrenta “uma campanha de terror com força brutal”, segundo palavras da ONU (Organização das Nações Unidas). A repressão imposta pelo governo militar foi uma reação às eleições presidenciais de novembro de 2020.

Na ocasião, a NLD venceu as eleições com 82% dos votos, ainda mais do que havia obtido no pleito de 2015. Em fevereiro de 2021, então, a junta militar, que já havia impedido a sigla de assumir o poder antes, prendeu Suu Kyi, dando início a protestos respondidos com violência pelas forças de segurança nacionais.

As ações abusivas da junta levaram ao isolamento global de Mianmar, e em dezembro de 2022 o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução histórica que insta os militares a libertar Suu Kyi. A Resolução 2669 ainda exige “o fim imediato de todas as formas de violência” e pede que “todas as partes respeitem os direitos humanos, as liberdades fundamentais e o Estado de Direito”.

A proposta, feita pelo Reino Unido, foi aprovada no dia 21 de dezembro de 2022 com 12 votos a favor. Os membros permanentes China e Rússia se abstiveram, optando por não exercer vetos. A Índia também se absteve.

Beijing e Moscou, por sinal, estão entre os poucos governos do mundo que mantêm relações formais com Mianmar, inclusive vetando resoluções que venham a condenar a brutalidade dos atos contra opositores e a população civil em geral, como no caso de dezembro de 2022.

Inicialmente, o golpe de Estado foi recebido com reprovação pela China, que vinha dialogando para firmar acordos comerciais com o governo eleito e perdeu financeiramente com a queda. Mas o cenário mudou rapidamente. Para não se distanciar da junta, Beijing classificou a prisão de Suu Kyi e de outros funcionários do governo como uma “remodelação de gabinete”, palavras usadas pela agência de notícias estatal Xinhua.

A China é um também dos principais fornecedores de armas para a juntar militar, desrespeitando um pedido de embargo global feito pela ONU para enfraquecer o regime birmanês. Há indícios de que as forças locais seguem se equipando com novos armamentos chineses, tendo ainda como fornecedores complementares a Rússia e o Paquistão.

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