A Coreia do Sul convocou nesta segunda-feira (28) o encarregado de negócios da Ucrânia em Seul e exigiu explicações oficiais e um pedido de desculpas pela divulgação da transferência de dois soldados norte-coreanos capturados pelas forças ucranianas na região russa de Kursk. As informações são da Al Jazeera.
O episódio abriu uma crise diplomática entre dois países que mantêm relações próximas desde o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia. O governo sul-coreano afirma que a transferência dos prisioneiros havia sido negociada sob um acordo de confidencialidade, enquanto Kiev contesta a existência desse compromisso nos termos apresentados por Seul.
A disputa começou depois que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, revelou na semana passada, durante discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, que os dois norte-coreanos haviam sido enviados à Coreia do Sul.

Os soldados foram capturados em janeiro de 2025, quando integravam as forças norte-coreanas deslocadas para a região de Kursk para apoiar as tropas russas. Eles haviam manifestado interesse em permanecer na Coreia do Sul.
Disputa sobre sigilo
O presidente sul-coreano, Lee Jae Myung, afirmou que a divulgação violou um acordo de confidencialidade estabelecido entre Seul e Kiev. Segundo ele, a questão era especialmente sensível por envolver a segurança dos prisioneiros, de seus familiares que permanecem na Coreia do Norte e as relações entre as duas Coreias.
“Não sei os motivos que levaram a Ucrânia a divulgar essas informações em violação ao acordo de confidencialidade, mas é profundamente lamentável”, escreveu Lee na rede social X.
O gabinete presidencial sul-coreano afirmou posteriormente que Kiev havia solicitado que a transferência permanecesse em sigilo. Seul teria concordado em manter a operação confidencial justamente para reduzir os riscos aos soldados e aos familiares deles no Norte.
Na segunda-feira, o primeiro vice-ministro das Relações Exteriores da Coreia do Sul, Park Yoon-joo, transmitiu ao encarregado de negócios ucraniano, Andrii Vieshkin, a posição de Seul sobre o caso. O diplomata afirmou que levaria a reclamação ao governo de Kiev.
O governo sul-coreano também afirmou que a negativa ucraniana sobre a existência do acordo prejudicou a confiança entre os dois países.
Kiev contesta versão
A Ucrânia, por sua vez, afirmou que a transferência dos dois norte-coreanos foi realizada por meio de diálogo direto com Seul.
Uma fonte ligada à Presidência ucraniana afirmou à imprensa local que Kiev apenas tornou pública a informação de que os soldados haviam sido entregues à Coreia do Sul, sem revelar detalhes do processo. A posição apresentada por Kiev é que seria incomum manter em segredo toda a transferência.
Essa diferença de versões está no centro da crise atual: enquanto Seul considera que houve uma violação de um compromisso bilateral de confidencialidade, Kiev sustenta que não havia obrigação de manter a transferência integralmente em segredo.
O gabinete presidencial sul-coreano afirmou que avalia outras medidas relacionadas ao episódio, mas não especificou quais seriam.
Por que os prisioneiros são importantes?
Os dois soldados são casos particularmente sensíveis porque representam uma rara oportunidade de obter informações sobre a participação militar da Coreia do Norte na guerra russa contra a Ucrânia.
Pyongyang enviou milhares de militares para a Rússia a partir de 2024, em apoio às forças de Moscou. Os soldados norte-coreanos participaram principalmente das operações na região de Kursk, onde tropas ucranianas haviam realizado uma incursão em território russo.
Os dois capturados em janeiro de 2025 foram os primeiros militares norte-coreanos capturados vivos pelas forças ucranianas nesse contexto.
Além do valor político, os prisioneiros podem fornecer informações sobre treinamento, organização e capacidades das forças norte-coreanas. Um parlamentar sul-coreano que se encontrou com os soldados em 2025 afirmou que eles haviam servido nas forças especiais da Coreia do Norte.
A presença de tropas norte-coreanas na Rússia transformou a guerra na Ucrânia em um dos principais pontos de contato militar entre Pyongyang e Moscou. A Coreia do Norte também forneceu à Rússia munições e outros sistemas de armas, segundo avaliações ucranianas e de fontes independentes.
O fator intercoreano
Para Seul, entretanto, o caso não envolve apenas a relação com a Ucrânia. A Coreia do Sul e a Coreia do Norte continuam tecnicamente em guerra, já que o conflito de 1950 a 1953 terminou com um armistício, e não com um tratado de paz. A Constituição sul-coreana também estabelece uma relação jurídica particular com os habitantes do Norte, o que influencia a forma como Seul trata norte-coreanos que chegam ao país.
O governo sul-coreano havia evitado confirmar publicamente a chegada dos dois soldados justamente por considerar que a exposição poderia colocar em risco os prisioneiros e seus familiares na Coreia do Norte.
A divulgação feita por Zelensky, portanto, retirou o episódio do âmbito reservado das negociações entre Kiev e Seul e o colocou no centro do debate público internacional.
O caso também ocorre em um momento em que a participação militar norte-coreana na guerra da Ucrânia aproxima ainda mais Pyongyang e Moscou e cria novos desafios para Seul. A transferência dos dois soldados para a Coreia do Sul transforma indivíduos capturados no campo de batalha em uma questão diplomática envolvendo três governos diretamente, além da Rússia, país onde eles foram capturados.
O que acontece agora?
O Ministério da Unificação sul-coreano informou que analisará os casos de acordo com a legislação do país e os procedimentos adotados em situações anteriores envolvendo norte-coreanos que chegam ao Sul.
Os dois soldados devem passar por interrogatórios e por uma investigação de segurança antes da definição sobre sua permanência no país e eventual processo de reassentamento.
O Serviço Nacional de Inteligência participa desse procedimento enquanto os indivíduos permanecem sob custódia protetiva temporária.