ARTIGO: Maria Kolesnikova, líder do movimento verde no Quirguistão

Diretora do movimento MoveGreen, Maria trabalha para criar consciência ambiental no país da Ásia central
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Este artigo foi originalmente publicado pela ONU Mulher

Maria Kolesnikova, 31 anos, é diretora do MoveGreen, um movimento ambientalista jovem da República do Quirguistão, na Ásia Central. Com seus colegas, ela promove consciência ambiental em todo país e advoga por políticas mais ousadas e ambientalmente corretas. Durante a pandemia do novo coronavírus, ela levou seu ativismo à internet e, para o Dia da Terra, em 22 de abril, criou uma campanha que desafia as pessoas a tomarem sete medidas pelo meio ambiente enquanto estão em casa.

A capital do Quirguistão, Bishkek, está entre as cidades com pior qualidade do ar, principalmente quando o inverno começa e as pessoas são obrigadas a queimar lixo e pneus para se aquecerem. Apesar do aumento da ameaça contra a saúde, nem o governo nem as pessoas tomam atitudes para corrigir o problema.

Há cinco anos, Maria Koleniskova não imaginava que um dia estaria liderando o movimento verde do país. Mas sua vida mudou após conhecer Katherine Hall, uma australiana especialista em mudanças climáticas.

Hoje, como diretora do MoveGreen no Quirguistão, Maria, assim como outras pessoas, vem se adaptando ao ativismo online durante a pandemia do coronavírus. Para ela, ao mesmo tempo que muita coisa mudou, muito permaneceu o mesmo.

As medidas de quarentena mostraram que “muito pode ser feito sem sair de casa, usando ferramentas online para fazer reuniões, negociações, conferências, workshops e treinamentos. Nós costumávamos gastar muito trazendo especialistas para nossos eventos. A quarentena nos mostrou que podemos nos adaptar.” Ela destaca que o vírus a obrigou a mudar hábitos de consumo, e as emissões de carbono têm reduzido com menos viagens aéreas.

Mas Maria adverte contra a complacência em relação à crise climática durante a pandemia do Covid-19. “Como parte do nosso trabalho, nós monitoramos a qualidade do ar em Bishkek e infelizmente nada mudou. A maioria das pessoas acha que 80% da poluição da nossa cidade é causada por carros. Mas a quarentena nos mostrou que não é o caso, se não a situação teria mudado.”

Maria aponta que março deste ano foi um mês relativamente frio, por isso as pessoas tiveram que recorrer aos artifícios usuais para se manterem aquecidos.

O MoveGreen, em parceria com outras organizações ambientalistas, lançaram um desafio de sete dias nas redes sociais para comemorar o Dia da Terra. “Sete hábitos simples que cada um de nós podemos ter em casa que irão beneficiar o meio ambiente”, explica Maria.

“Por exemplo, durante a quarentena, você pode olhar para a sua lixeira e ver quanto lixo você produz em um dia e pensar como consumir com mais responsabilidade. Ou você pode escolher não comer carne por um dia toda semana. Durante a quarentena, nós começamos a ir às compras com menos frequência. Ao invés de usar uma sacola de plástico, leve uma ecobag com você.”

Com a campanha online, Maria espera que as pessoas desenvolvam hábitos em prol do meio ambiente que perdurem após o fim da quarentena.

Maria atua como ativista ambiental há cinco anos (Foto: UN Photo)

Como ela se tornou uma ativista

“Foi em 2015. Katherine veio a Bishkek organizar o movimento MoveGreen com foco na redução de riscos de desastre, poluição do ar e educação ambiental. Nós nos tornamos amigas, mesmo que na época eu não tivesse os mesmos ideais que ela. Em uma das suas visitas, nós fomos ao mercado. Eu a vi recusar diversas vezes as sacolas de plástico”, lembra Maria.

Ela recorda as explicações de Katherine de como era prejudicial o uso excessivo de plástico e a necessidade de uma gestão mais responsável dos recursos naturais do país. A ativista australiana também falou como todas as pessoas têm o poder de fazer a diferença.

As palavras da nova amiga inspiraram Maria a se tornar voluntária. “Eu comecei ajudando a MoveGreen e a escrever posts no Facebook. Eu lembro que foi difícil no começo, porque eu não entendia totalmente as mudanças climáticas ou desastres naturais. Eu passei muito tempo estudando”, afirma.

Três anos depois, confiante e com muito conhecimento sobre questões ambientais, Maria pegou seu primeiro projeto. Junto com o Ministério de Situações de Emergência do Quirguistão, ela trabalho em áreas rurais para criar consciência nas pessoas sobre o que fazer em casos de emergência e como reduzir o risco de desastres naturais. O sucesso do projeto a tornou diretora do MoveGreen.

Trabalhando com as crianças

Por meio da iniciativa conhecida como “Escolas Respiram Facilmente”, o MoveGreen tem liderado os esforços de engajar as crianças em idade escolar a cuidar do meio ambiente. Com palestras e experimentos de laboratório ministrados por voluntários e ativistas, a iniciativa tem mobilizado crianças em todo o país.

“Foi interessante ver como crianças não tinham conhecimento sobre plantas, biodiversidade, ar ou clima se tornaram tão informadas em apenas seis meses. Eles aprenderam sobre fontes de poluição e sobre diferentes maneiras de resolver o problema. Se no futuro essas crianças se tornarem líderes do nosso país, nós não precisaremos mais nos preocupar”, afirma Maria.

Como parte desse projeto, o MoveGreen instala sensores nas escolas para medir a qualidade do ar e ajudar os professores e crianças a decidir se devem ou não abrir a janela para ventilar o ambiente. Com essa informação, muitas escolas particulares de Bishkek podem enviar alertas aos parentes das crianças sobre o nível de poluição do ar e medidas para prevenir que as crianças sejam expostas.

A informação tem sido essencial sobretudo para as mulheres. Maria acredita que elas têm um papel fundamental na proteção do meio ambiente. “As mulheres se envolvem mais com seus filhos e com a saúde com base nas informações diária que recebem. Portanto, elas são mais proativas.”

O trabalho da MoveGreen é oportuno. Por todo o país, tem se espalhado a consciência de que é preciso fazer algo sobre as questões ambientais, principalmente poluição. O primeiro fórum de mudanças climáticas reuniu 400 participantes de várias partes do Quirguistão. Muitos deles jovens que procuram por novas ferramentas e conhecimentos, explica Maria.

Para ajudar neste momento, sob a liderança de Maria, o MoveGreen lançou o aplicativo Aba.kg, que já registra 3 mil downloads. Agora, a população de Bishkek pode medir a qualidade do ar usando seus celulares.

Pela primeira vez, está em andamento um plano para abrir uma escola para líderes climáticos.

Fontes perigosas de poluição do ar

As medições realizadas pelo MoveGreen em todo o país mostram que a principal fonte de contaminação do ar por partículas finas — um poluente atmosférico perigoso para a saúde humana — é o carvão queimado pelas famílias que vivem abaixo da linha de pobreza.

Uma outra prática comum e extremamente prejudicial é a queima de pneus para produzir combustível para o aquecimento de termas privadas. “Frequentemente, essas termas estão próximas a escolas, o que força as crianças a respirarem um ar poluído. Isso é um verdadeiro desastre que, muitas vezes, passa despercebido pelas autoridades”, diz Maria.

A Central de Aquecimento e Energia e um lixão em Bishkek também estão poluindo o ar.

Com mais pessoas ficando em casa durante a pandemia, o consumo de energia dificilmente reduzirá, por isso a necessidade de educar continuamente a população, mesmo durante a pandemia.

O ativismo e comprometimento de Maria por uma mudança duradoura tem frequentemente enfrentando resistência. “Sou muito ativa, faço muitas perguntas difíceis sobre políticas climáticas e financiamento do clima, o que pode deixar as pessoas desconfortáveis e até desencadear ações contra mim”, afirma. Mas Maria e seus colegas não estão dispostos a desistir do trabalho.

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