Por André Amaral
A China está abandonando silenciosamente uma das posições mais tradicionais de sua diplomacia em relação à Coreia do Norte. Após décadas defendendo oficialmente a desnuclearização da Península Coreana, Beijing passou a evitar referências ao tema em encontros de alto nível com o regime de Kim Jong-un, alimentando análises de que o governo chinês já aceita, na prática, os norte-coreanos como uma potência nuclear.
A mudança ganhou destaque após a visita do presidente Xi Jinping a Pyongyang, em junho de 2026. Segundo a Reuters, os comunicados divulgados pelos governos chinês e norte-coreano após as reuniões omitiram qualquer menção à desnuclearização, algo que historicamente figurava entre os principais pontos da política chinesa para a região. A Associated Press chegou à mesma conclusão, observando que o silêncio de Xi sobre armas nucleares foi interpretado por especialistas como um possível sinal de aceitação tácita do arsenal de Pyongyang.

A ausência do tema representa uma ruptura importante em comparação com anos anteriores. Durante sua visita à Coreia do Norte em 2019, Xi Jinping afirmou publicamente que a China apoiava esforços para a desnuclearização da península. Desta vez, o foco das declarações oficiais esteve concentrado no fortalecimento da cooperação bilateral, na estabilidade regional e na ampliação dos laços estratégicos entre os dois países.
A mudança não se limita aos discursos. Um estudo publicado pelo U.S. Army War College aponta que Beijing começou a se afastar gradualmente da defesa explícita da desnuclearização ao longo de 2025 e 2026. O relatório destaca que o chanceler chinês Wang Yi visitou Pyongyang em abril sem mencionar o tema em declarações públicas, algo considerado incomum para a diplomacia chinesa. Os autores concluem que a China parece caminhar para uma aceitação de fato da Coreia do Norte como Estado nuclear, concentrando seus esforços na contenção de crises e na preservação da estabilidade regional.
Análises independentes chegam a conclusões semelhantes. O Lowy Institute, centro de estudos sediado na Austrália, avaliou que a visita de Xi Jinping a Pyongyang não revitalizou a diplomacia da desnuclearização, mas simbolizou seu enfraquecimento. Segundo o instituto, a China parece considerar que o objetivo de convencer Kim Jong-un a abrir mão de suas armas nucleares se tornou inviável diante da evolução do programa militar norte-coreano e do novo alinhamento entre Pyongyang e Moscou.
O contexto geopolítico também contribui para essa mudança. Desde o início da aproximação militar entre Rússia e Coreia do Norte, intensificada pela guerra na Ucrânia, Beijing passou a demonstrar menos interesse em pressionar o regime norte-coreano. Para analistas ouvidos pela Reuters, a prioridade chinesa atualmente é impedir uma instabilidade na fronteira e evitar que a Coreia do Norte se torne excessivamente dependente de Moscou.
Ao mesmo tempo, Pyongyang vem endurecendo sua própria posição. Em junho, autoridades norte-coreanas declararam que a desnuclearização é uma questão “encerrada de forma irreversível”. A informação foi divulgada pela Reuters, que relatou a rejeição explícita do regime a qualquer negociação que envolva o abandono de seu arsenal nuclear. Dias antes, a irmã de Kim Jong-un, Kim Yo-jong, já havia afirmado que o país jamais abrirá mão de seu status nuclear, independentemente das pressões internacionais.
Em artigo publicado na revista Foreign Affairs e repercutido pela agência NK News, Victor Cha, ex-integrante do Conselho de Segurança Nacional no governo George W. Bush, afirmou que a estratégia “fracassou” e sugeriu uma nova abordagem baseada em uma “paz fria” com o regime de Pyongyang.
Para especialistas em segurança internacional, o resultado é uma transformação significativa no equilíbrio estratégico do Nordeste Asiático. Embora Beijing continue defendendo oficialmente o diálogo e a estabilidade regional, cresce a percepção entre analistas e diplomatas de que a China já não considera realista a desnuclearização da Coreia do Norte. Em vez disso, a estratégia chinesa parece ter migrado para a gestão dos riscos associados a uma potência nuclear norte-coreana permanente.