China atravessa crise do petróleo com tanques cheios

Mesmo com a possível reabertura do Estreito de Ormuz, analistas avaliam que Beijing não deve voltar rapidamente aos níveis de importação registrados antes da guerra no Irã

A possível reabertura do Estreito de Ormuz, após o acordo temporário firmado entre Estados Unidos e Irã, pode não resultar em uma retomada imediata das compras chinesas de petróleo do Golfo Pérsico. Apesar da expectativa de normalização do tráfego marítimo na região, a China chega ao pós-guerra em uma posição diferente da maior parte dos países importadores: com estoques elevados e ampla capacidade de abastecimento. As informações são do The New York Times.

Maior importadora de petróleo do mundo, a China reduziu suas compras diárias em cerca de um terço durante o conflito, movimento impulsionado principalmente pela disparada dos preços internacionais. A estratégia ajudou a aliviar parte da pressão sobre o mercado global de energia em meio ao fechamento quase total do Estreito de Ormuz, rota considerada uma das mais importantes para o transporte de petróleo no planeta.

Refinaria PetroChina Changqing (Foto: WikiCommons)

Segundo especialistas do setor, a redução das importações foi possível porque o país vinha acumulando grandes reservas de petróleo bruto nos últimos anos. A política faz parte de um plano mais amplo de segurança energética adotado por Beijing, que busca reduzir sua vulnerabilidade diante de crises internacionais e interrupções no fornecimento.

Além dos estoques estratégicos mantidos pelo governo, refinarias chinesas também operaram durante toda a guerra utilizando reservas corporativas. Como resultado, os tanques de armazenamento seguem abastecidos com gasolina, diesel, querosene de aviação e outros derivados.

Demanda interna enfraquecida

Outro fator que pode limitar novas compras é a desaceleração da demanda doméstica. Com a alta dos preços dos combustíveis, consumidores e empresas reduziram o consumo. As vendas de veículos movidos a gasolina também registraram forte queda nos últimos meses.

Paralelamente, o governo chinês restringiu exportações de combustíveis refinados para garantir o abastecimento interno. A medida contribuiu para a escassez de derivados em diversos países asiáticos que dependem do refino chinês.

Para analistas do mercado energético, a combinação de estoques elevados, demanda mais fraca e incertezas geopolíticas reduz a necessidade de uma retomada acelerada das importações.

Acordo ainda gera dúvidas

Embora o entendimento entre Washington e Teerã tenha aberto caminho para a reabertura do Estreito de Ormuz, especialistas alertam que os riscos na região permanecem elevados. Questões como a remoção de possíveis minas marítimas e a própria duração do acordo, válido inicialmente por 60 dias, continuam gerando cautela entre investidores e governos.

O acordo também prevê esforços para flexibilizar as sanções internacionais sobre o petróleo iraniano. Caso isso ocorra, refinarias chinesas poderão perder os descontos que recebiam ao comprar petróleo do Irã durante o período de restrições, reduzindo uma vantagem econômica importante para o setor.

Antes da guerra, a China absorvia mais de 90% das exportações de petróleo iraniano, o equivalente a cerca de 1,5 milhão de barris por dia, segundo estimativas da consultoria Kpler.

Impacto global

A postura chinesa será acompanhada de perto pelo mercado internacional. Como principal comprador mundial de petróleo, qualquer mudança no ritmo de importações do país tem potencial para influenciar preços, fluxos comerciais e estratégias de produção dos grandes exportadores.

Por enquanto, porém, a expectativa predominante é de que Beijing mantenha uma política cautelosa, priorizando o uso de seus estoques e evitando ampliar compras enquanto os preços permanecerem elevados e as incertezas geopolíticas persistirem.

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