A Coreia do Norte executou crianças e adolescentes em idade escolar por assistirem à série sul-coreana Round 6 e consumirem conteúdos como dramas televisivos e K-pop, segundo um relatório divulgado pela Anistia Internacional (AI). A organização afirma que estudantes do ensino fundamental e médio foram submetidos a execuções públicas, trabalhos forçados e humilhações como punição por acessar mídia estrangeira considerada ilegal pelo regime. As informações são do The New York Post.
Os dados são baseados em 25 entrevistas aprofundadas realizadas em 2025 com norte-coreanos que fugiram do país entre 2012 e 2020. De acordo com os relatos, as punições variam de advertências a sentenças de morte, dependendo do tipo de conteúdo consumido, da forma de acesso e, principalmente, da condição econômica das famílias envolvidas.
O entretenimento sul-coreano é proibido pelo regime do ditador Kim Jong-un. Apesar dos riscos de punições graves, há norte-coreanos dispostos a consumir as produções do país vizinho, que fazem sucesso no mundo todo.

Um dos entrevistados relatou que estudantes do ensino médio foram executados na província de Yanggang, próxima à fronteira com a China, por assistirem à série Round 6, produção da Netflix conhecida internacionalmente como Squid Game. A Radio Free Asia também documentou, em 2021, uma execução relacionada à distribuição da série na província de Hamgyong do Norte.
Pyongyang afirma que cultura pop da Coreia do Sul “corrompe as mentes” da população do Norte. E há medidas legais para censurá-la. A Lei de Ideologia Reacionária e Rejeição da Cultura, implementada na Coreia do Norte em 2020, proíbe a população de distribuir, assistir ou ouvir qualquer conteúdo cultural considerado anti-socialista. As violações dessa lei podem levar a severas punições, incluindo anos de trabalhos forçados para pequenas quantidades de material proibido e até a pena de morte para quantidades maiores.
Os entrevistados afirmaram que a aplicação das punições é desigual. Famílias com maior poder financeiro conseguem evitar sentenças mais severas por meio de subornos ou conexões políticas, enquanto pessoas de baixa renda enfrentam condenações mais duras pelo mesmo tipo de infração.
Além das punições diretas, ex-moradores do país relataram que estudantes eram obrigados a assistir a execuções públicas como parte de um processo de “educação ideológica”, utilizado pelo Estado para intimidar a população e reforçar o controle social.
Apesar da repressão, o relatório indica que o consumo de mídia estrangeira segue disseminado na Coreia do Norte, principalmente por meio de pen drives contrabandeados da China. Segundo os relatos, trabalhadores, membros do partido e até agentes de segurança assistem a conteúdos sul-coreanos de forma aberta ou clandestina, enquanto operações de repressão seguem sendo realizadas por uma unidade policial especializada conhecida como Grupo 109.
A Anistia Internacional e organismos internacionais afirmam que essas práticas se alinham a um padrão histórico de violações de direitos humanos no país, já documentado por investigações da ONU, autoridades sul-coreanas e veículos internacionais.