Ásia e Pacífico

Quem é a ativista que, de Istambul, luta por democracia no Turcomenistão

Dursoltan Taganova, 29, é procurada em seu país e alvo de pedidos de deportação por parte do governo turcomeno

Dursoltan Taganova, 29, descobriu na Turquia que era uma ativista pela democracia no seu Turcomenistão natal. As postagens contra o governo nas redes sociais logo se tornaram manifestações no portão do consulado turcomeno em Istambul.

Expatriada desde 2011, Taganova foi presa no último dia 29 de julho pela polícia turca. Do lado de fora do consulado, turcomenos pediam a instauração de um regime democrático no país e alguma resposta do governo local contra a pandemia do novo coronavírus.

A jovem permaneceu 85 dias sob custódia das autoridades turcas por “participar de uma manifestação não autorizada e protestar contra a Turquia”. Ancara ameaçou deportá-la a pedido do governo turcomeno, segundo fonte da oposição no exílio, que falou com a Radio Free Europe.

Quem é a ativista que, de Istambul, luta por democracia no Turcomenistão
A ativista turcomena Dursoltan Taganova, 29, que vive na Turquia (Foto: Reprodução/ Chronicles of Turkmenistan)

Já Taganova afirmou à RFE que “não tem mais medo”. “Não temos outra escolha porque os turcomenos estão em uma situação grave. Precisamos exigir nossos direitos”, disse.

Os expatriados relatam que o governo se recusa a renovar passaportes, não oferece auxílio no exterior e limita incentivos para que os cidadãos vivam fora do país.

Entre os 80 turcomenos detidos naquele dia, Taganova foi a única mantida presa. Segundo a organização Human Rights Watch, as autoridades consulares alegavam que a ativista e outros quatro turcomenos haviam feito “ameaças de violência” e “interferido no trabalho” dos diplomatas.

Segundo o portal Chronicles of Turkmenistan, a ativista é procurada no país e será presa se retornar. O site é editado desde 2006 por opositores no exílio, baseados em Viena, na Áustria.

Ditadura isolada na Ásia Central

O Turcomenistão é um dos países mais fechados do mundo. Oito meses desde o início da pandemia, afirma não haver casos de Covid-19 em seu território e não consta nas listas de órgãos como a OMS (Organização Mundial da Saúde), que mapeiam o avanço da doença no mundo.

A população está proibida de fazer viagens domésticas até janeiro, mas o governo não deu nenhum motivo. É vetado mencionar a doença pelo nome, mas as pessoas devem usar máscaras para proteção “contra a poeira”. Os mortos recebem atestados de óbito com pneumonia como causa mortis.

Comandado pela ditadura de Gurbanguly Berdymukhammedov desde 2006, o país nunca viu democracia. Não há imprensa, eleições livres ou oposição.

Há expurgos frequentes nos escalões mais baixos do governo, enquanto dissidentes e opositores são presos ou enviados a hospitais psiquiátricos. Há registros de presos políticos desaparecidos há 18 anos, segundo a HRW.

Ex-república soviética, o Turcomenistão tornou-se independente a contragosto em 1991 sob controle absoluto de Saparmurat Niyazov, que se autoconcedeu a alcunha de “Turkmenbashi”, ou “pai dos turcomenos”.

Quem é a ativista que, de Istambul, luta por democracia no Turcomenistão
Cerimônia de casamento na frente da estátua de ouro de 12 metros do ditador Saparmurat Niyazov, na capital turcomena Ashgabat; imagem sem data (Foto: Wikimedia Commons)

O “presidente vitalício” era adepto de um culto à personalidade parecido com o da família Kim, na Coreia do Norte. O exemplo mais evidente é o chamado Monumento à Neutralidade, com uma estátua de 12 metros do “Turkmenbashi”, feita em ouro e que custou estimados US$ 12 milhões.

A estrutura foi o ponto mais alto no horizonte da capital Ashgabat até 2010 e contava com uma estrutura giratória para que sempre estivesse voltada para o sol. Foi transferida para o subúrbio por Berdymukhammedov, que investe agora no culto à sua própria personalidade.