Seca leva famílias afegãs a vender filhas crianças para pagar dívidas e comprar comida

Meninas de apenas dois anos são prometidas em casamento em meio à fome e ao colapso da renda rural. Redução da ajuda humanitária agrava a situação de mulheres e crianças sob o regime do Taleban

A seca prolongada e a pobreza extrema estão levando famílias do Afeganistão a entregar filhas ainda crianças em casamento para pagar dívidas, comprar alimentos e custear tratamentos médicos. Na província de Badghis, no noroeste do país, meninas de apenas dois anos já foram prometidas a futuros maridos, enquanto outras, ainda na infância, passam a viver com homens adultos.

A situação foi documentada pela fotógrafa Elise Blanchard em reportagem publicada pelo The Guardian. O trabalho relata histórias de famílias que perderam plantações, rebanhos e fontes de renda após sucessivos períodos de seca. Sem recursos para sobreviver, algumas recorrem aos casamentos infantis como forma de obter dinheiro e evitar que outros integrantes da família passem fome.

Menina afegã canta uma oração durante uma cerimônia de lançamento da pedra fundamental na aldeia de Dar Bhabba, na província de Nangarhar, no Afeganistão (Foto: WikiCommons)

Em Badghis, cerca de 95% da população depende da agricultura de sequeiro e da pecuária. A falta de chuvas comprometeu as colheitas, reduziu a disponibilidade de pastagens e obrigou moradores a vender animais para sobreviver. Milhares de pessoas abandonaram suas aldeias em busca de trabalho, mas muitas não encontraram oportunidades nas cidades.

O resultado é uma crise que combina insegurança alimentar, deslocamento interno e violações dos direitos das crianças. Em alguns casos, os valores pagos pelos futuros maridos são utilizados para quitar dívidas acumuladas após sucessivas perdas agrícolas. Em outros, o dinheiro financia alimentos ou tratamentos médicos que as famílias não conseguem pagar.

Uma das histórias relatadas é a de Khatira, de 11 anos, prometida a um homem de 20 anos para ajudar a quitar as dívidas dos pais. Segundo a mãe, a menina passou a chorar com frequência e deixou de sair de casa por vergonha da situação. Em outro caso, Nazila, de cinco anos, foi prometida a um garoto de 15.

A reportagem também descreve famílias que passaram dias sem comer antes de decidir entregar as filhas em casamento. Em uma situação extrema, um pai vendeu o rim do filho de dez anos para conseguir dinheiro para alimentar a família.

A crise não se limita às aldeias. Famílias deslocadas pela seca buscaram abrigo em Herat, uma das principais cidades afegãs, mas encontraram estruturas de assistência humanitária sem recursos suficientes para atender à população. Sem alternativas, algumas continuaram recorrendo aos casamentos infantis.

A redução da ajuda internacional agrava o quadro. Segundo Mark Calder, diretor de defesa de direitos para o Afeganistão da organização humanitária World Vision International, o casamento precoce expõe meninas a riscos de saúde potencialmente fatais, enquanto clínicas que oferecem atendimento estão desaparecendo com os cortes na assistência.

As consequências incluem gravidez precoce, complicações obstétricas e violência doméstica. Muitas meninas são levadas para a casa dos sogros quando o pagamento do dote é concluído, frequentemente no início da puberdade. A reportagem também destaca que não existe uma idade mínima legal claramente estabelecida para que deixem a casa dos pais para se casar.

O cenário se soma à repressão imposta pelo Taleban desde que o movimento fundamentalista retomou o poder, em agosto de 2021. As restrições à educação e ao trabalho feminino ampliam a vulnerabilidade econômica das mulheres e reduzem a capacidade de muitas famílias de obter renda.

A exclusão de meninas e mulheres da educação e de diferentes espaços da sociedade afegã já foi apontada em reportagens anteriores de A Referência como um dos fatores associados ao agravamento dos riscos à saúde, ao isolamento social e à perda de autonomia feminina.

Em meio à crise, algumas meninas ainda frequentam a escola enquanto aguardam que suas famílias quitem as dívidas relacionadas ao casamento. É o caso de Aisha, de 12 anos, prometida a um homem de 20. A mãe tenta evitar contato com a família do futuro marido para adiar a saída da filha de casa.

Misoginia

Desde o colapso do governo afegão, a repressão contra mulheres e meninas tem sido marca do Taleban. Elas não podem estudar, trabalhar ou sair de casa desacompanhadas de um homem. A perda do salário por parte de muitas mulheres que sustentavam suas casas tem contribuído para o empobrecimento da população afegã. E foram relatados casos de solteiras ou viúvas forçadas a se casar com combatentes.

Em 2023, os radicais proibiram inclusive o trabalho das mulheres afegãs em organizações não governamentais e na ONU (Organização das Nações Unidas), o que levou muitas dessas entidades a suspenderem a ajuda humanitária que ofereciam à população do Afeganistão, uma das mais necessitadas de tal suporte em todo o mundo.

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