Alemanha inicia maior transformação militar desde a Segunda Guerra e projeta Bundeswehr “pronta para a guerra” até 2039

Nova estratégia militar expõe transformação profunda das forças armadas alemãs, aumento recorde de gastos e mudança de postura geopolítica diante de Rússia, EUA e Otan

A Alemanha iniciou a mais ambiciosa transformação de suas forças armadas desde a Segunda Guerra Mundial, com uma nova estratégia militar que projeta uma Bundeswehr (as forças armadas locais) “pronta para a guerra” até 2039. O plano, ainda parcialmente confidencial, foi detalhado em entrevista do general Carsten Breuer à The Economist e marca uma virada histórica na postura defensiva do país.

A mudança ocorre em meio à escalada de tensões com a Rússia e à crescente incerteza sobre o compromisso de segurança dos Estados Unidos com a Europa. Segundo o governo alemão, a nova doutrina responde a um cenário de guerra híbrida, ataques cibernéticos e ameaças convencionais simultâneas.

O plano prevê uma reestruturação profunda da Bundeswehr, com foco em superioridade tecnológica, uso intensivo de sistemas não tripulados e integração de dados em tempo real no campo de batalha. A meta é alcançar “superioridade tecnológica” até 2039, incluindo capacidade ampliada de ataques de precisão.

Soldados das forças alemãs em imagem de 2021 (Foto: WikiCommons)

No campo financeiro, a Alemanha se comprometeu a elevar os gastos com defesa para 3,5% do PIB até 2029, o que pode levar o orçamento militar a ultrapassar €160 bilhões (US$ 188 bilhões). O país, segundo a estratégia, deverá ultrapassar o nível de investimento de potências como Reino Unido e França.

O chanceler Friedrich Merz afirma que o objetivo é transformar a Bundeswehr no “exército convencional mais forte da Europa”, sinalizando uma mudança de paradigma em um país historicamente cauteloso com projeções militares.

Além do investimento em tecnologia, o plano também enfrenta um desafio estrutural: a falta de pessoal. A Alemanha pretende aumentar o efetivo de 185 mil para 260 mil soldados até 2035, além de criar uma reserva de 200 mil militares. Para isso, o governo adotou medidas iniciais de recrutamento, incluindo questionários obrigatórios para jovens de 18 anos.

Embora o serviço militar obrigatório tenha sido suspenso em 2011, cresce o debate sobre sua possível retomada. Pesquisas internas indicam apoio moderado da população, mas resistência entre os mais jovens, o que pode dificultar a implementação da medida.

Outro ponto crítico está na modernização da cadeia de compras militares. A Bundeswehr busca superar um histórico de burocracia e atrasos em aquisições, que, segundo Breuer, deixaram o país com estruturas obsoletas. O general afirma que o sistema anterior era “projetado para adquirir praticamente nada”, o que comprometeu a prontidão militar.

A nova estratégia também reforça o papel da Alemanha dentro da Otan, mas destaca uma mudança de postura: Berlim pretende assumir maior protagonismo europeu em defesa, ainda que mantenha diferenças em relação a aliados como Reino Unido e França no envolvimento em operações externas.

Apesar do avanço, o documento reconhece limitações estratégicas e alerta para o risco de uma escalada militar na Europa. A doutrina cita diretamente a Rússia como principal ameaça potencial ao bloco ocidental.

Analistas internacionais apontam que o movimento marca o fim definitivo da era de contenção militar alemã pós-Guerra Fria e abre uma nova fase de reposicionamento geopolítico do país dentro da segurança europeia.

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