Projeto de 1,2 mil casas pode dividir a Cisjordânia e dificultar criação de Estado palestino

Israel acelera a construção de assentamentos, estradas e postos avançados na Cisjordânia, enquanto o projeto E1 ameaça fragmentar o território palestino e dificultar a criação de um Estado independente

A expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia ganhou novo impulso nos últimos anos e pode alterar de forma significativa a geografia do território reivindicado pelos palestinos para a criação de um Estado próprio. O avanço das construções, a abertura de novas estradas e a regularização de postos avançados fazem parte de um processo que críticos de Israel consideram uma tentativa de criar “novas realidades” difíceis de reverter. As informações são da BBC.

A região mais estratégica nesse processo é E1, localizada a leste de Jerusalém. O governo israelense abriu licitações para a construção de cerca de 1,2 mil moradias na área, provocando críticas de países europeus, da ONU e de autoridades palestinas. O projeto é considerado particularmente controverso porque pode interromper a continuidade territorial entre o norte e o sul da Cisjordânia.

A preocupação está relacionada à localização de E1. A construção de um grande assentamento nessa área poderia separar Jerusalém Oriental de outras áreas palestinas e dificultar a formação de um território contínuo entre Ramallah, Jerusalém Oriental e Belém. Para os críticos, isso comprometeria ainda mais a possibilidade de criação de um Estado palestino com continuidade territorial.

(Foto: WikiCommons)

A Cisjordânia está sob controle israelense desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Israel tomou o território da Jordânia. Pela interpretação predominante do direito internacional, os assentamentos israelenses construídos em território ocupado são ilegais. Israel, por sua vez, contesta essa interpretação e mantém o controle sobre a região.

Expansão acelerada

O ritmo de expansão dos assentamentos aumentou especialmente desde 2022, quando Benjamin Netanyahu voltou ao cargo de primeiro-ministro à frente de uma coalizão de direita que reúne partidos favoráveis à expansão dos assentamentos.

A guerra em Gaza, iniciada após o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, também foi acompanhada por uma intensificação da atividade de colonos e da construção de infraestrutura na Cisjordânia.

Em Tzofim, no noroeste do território, uma análise de imagens de satélite realizada pela BBC Verify identificou aproximadamente 185 novos edifícios construídos desde 2022. Em Kochav Hashahar, outro assentamento, novas casas e estradas foram construídas em diferentes direções, além de um novo posto avançado para colonos.

Os postos avançados são especialmente controversos. Centenas foram estabelecidos desde a década de 1990 e muitos foram considerados ilegais também pela legislação israelense. Parte deles, porém, acabou sendo legalizada posteriormente pelo governo.

Controle territorial

A expansão não ocorre apenas por meio da construção de casas. A infraestrutura viária também desempenha papel importante na consolidação dos assentamentos israelenses.

Nos últimos anos, parte da administração civil da Cisjordânia passou para uma estrutura liderada por Bezalel Smotrich, ministro das Finanças de Israel e uma das principais figuras da direita favorável à expansão dos assentamentos.

O governo israelense anunciou em maio um investimento superior a 1 bilhão de shekels, aproximadamente US$ 360 milhões, para a construção de novas estradas na Cisjordânia. Segundo o governo, o objetivo é fortalecer o controle israelense sobre o território.

As novas vias conectam assentamentos israelenses, mas também podem fragmentar áreas palestinas, dificultando a circulação entre cidades e vilarejos.

Smotrich já afirmou que a expansão da infraestrutura é uma forma de garantir que os assentamentos sejam estabelecidos de maneira permanente. Em 2024, o ministro também declarou que sua missão era impedir a criação de um Estado palestino.

O papel da E1

A E1 é considerada uma das áreas mais sensíveis da Cisjordânia justamente por sua posição geográfica. O projeto prevê a expansão de um assentamento em uma área situada entre Jerusalém e o restante da Cisjordânia. A construção poderia criar uma barreira física entre comunidades palestinas e dificultar a continuidade territorial necessária para um eventual Estado palestino.

A organização israelense Peace Now, que acompanha a expansão dos assentamentos, acusa o governo de tentar acelerar o processo antes das próximas eleições israelenses. Segundo a entidade, a assinatura de contratos de construção criaria obstáculos para qualquer futuro governo que pretendesse interromper o projeto.

A questão ganhou dimensão internacional. O secretário-geral da ONU classificou o projeto como uma “ameaça existencial” para a possibilidade de criação de um Estado palestino. Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Canadá também consideraram o plano “inaceitável”, enquanto a União Europeia manifestou preocupação com os efeitos sobre a continuidade territorial da Cisjordânia.

Violência de colonos

A expansão dos assentamentos ocorre paralelamente ao aumento da violência de colonos israelenses contra palestinos na Cisjordânia.

Um dos episódios recentes envolveu duas casas palestinas cercadas por colonos, que teriam cortado o fornecimento de água e energia. O embaixador dos Estados Unidos em Israel, Mike Huckabee, conhecido por seu apoio aos assentamentos, classificou o episódio como um “ato criminoso e terrorista”.

Para os palestinos e os defensores da solução de dois Estados, o avanço das construções, das estradas e dos postos avançados pode produzir mudanças territoriais permanentes antes mesmo que qualquer acordo político seja alcançado.

A estratégia também é defendida abertamente por integrantes do governo israelense. Smotrich afirmou que a soberania israelense sobre a Cisjordânia deveria ser estabelecida “primeiro no terreno e depois por meio de legislação”.

A expansão dos assentamentos, portanto, não representa apenas o crescimento de comunidades israelenses. O processo envolve moradias, estradas, postos avançados e mudanças administrativas que podem redesenhar a geografia da Cisjordânia e afetar diretamente a possibilidade de criação de um Estado palestino.

Com novas construções avançando e o projeto E1 novamente em andamento, a disputa pelo território entra em uma fase na qual as transformações físicas da Cisjordânia podem se tornar tão importantes quanto as negociações diplomáticas.

Tags: