Alvo intocável: por que a ilha que é o coração do petróleo iraniano segue intacta na guerra

Responsável por cerca de 90% das exportações de petróleo iraniano, a ilha de Kharg permanece fora da campanha de bombardeios. Analistas alertam que um ataque poderia disparar os preços do petróleo

A ilha de Kharg, no Golfo Pérsico, é considerada o ponto mais sensível da economia petrolífera do Irã. Responsável por cerca de 90% das exportações de petróleo do país, o terminal permanece intacto mesmo após semanas de bombardeios conduzidos por Estados Unidos e Israel contra alvos iranianos. As informações são do The Guardian.

Especialistas apontam que um ataque direto à infraestrutura da ilha poderia provocar um choque no mercado energético global. A interrupção das exportações iranianas, que passam majoritariamente pelo terminal de Kharg, teria potencial para elevar ainda mais os preços do petróleo, já pressionados pela escalada do conflito no Oriente Médio.

Ilha de Kharg (Foto: WikiCommons)

Segundo Neil Quilliam, analista do think tank Chatham House, um eventual ataque poderia levar o preço do barril a patamares muito mais altos. De acordo com ele, a cotação que já atingiu cerca de US$ 120 (cerca de R$ 625) poderia subir para até US$ 150 (aproximadamente R$ 781) caso a ilha fosse atingida. Para o especialista, Kharg é um ponto vital para os mercados globais de energia.

Apesar da campanha militar, os Estados Unidos já atingiram cerca de 5 mil alvos dentro e ao redor do Irã sem atacar diretamente a infraestrutura petrolífera estratégica. Ainda assim, o conflito já impacta os preços do petróleo, que permanecem cerca de US$ 20 (R$ 104) mais caros por barril devido ao risco de retaliação iraniana.

O temor de uma escalada militar também afetou o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes para o transporte de petróleo no mundo. A ameaça de ataques e retaliações reduziu significativamente a circulação de petroleiros na região.

No sábado, Israel realizou ataques contra duas refinarias e dois depósitos de combustível em Teerã. Moradores relataram que a capital iraniana foi tomada por uma espessa fumaça preta, deixando partes da cidade em uma escuridão descrita como “apocalíptica”. Desde então, não houve novos bombardeios contra instalações petrolíferas de grande porte.

A ilha de Kharg fica a cerca de 43 quilômetros da costa iraniana e funciona como ponto final de diversos oleodutos que transportam petróleo dos campos localizados no centro e no oeste do país. Construída originalmente pela empresa americana Amoco, a infraestrutura foi nacionalizada após a Revolução Islâmica de 1979.

Imagens de satélite mostram grandes terminais de carregamento que se estendem da costa da ilha, permitindo o embarque do petróleo em navios-tanque de grande porte. A localização próxima a águas profundas torna Kharg um dos poucos pontos do litoral iraniano capazes de operar com grandes petroleiros.

Normalmente, entre 1,3 milhão e 1,6 milhão de barris de petróleo passam diariamente pela ilha. Segundo o banco de investimentos JP Morgan, o Irã aumentou esse volume para cerca de 3 milhões de barris por dia em meados de fevereiro, antecipando a possibilidade de um ataque liderado pelos Estados Unidos. Outros 18 milhões de barris estariam armazenados em tanques na própria ilha.

Relatos da imprensa indicam que autoridades americanas discutiram a possibilidade de capturar a ilha como forma de pressionar economicamente o regime iraniano. O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, não descartou o uso de forças terrestres contra o Irã, embora o contingente militar americano na região seja limitado.

Para alguns analistas, impedir as exportações de petróleo iraniano poderia enfraquecer financeiramente o governo em Teerã. O ex-assessor do Pentágono Michael Rubin afirmou ter discutido essa possibilidade com integrantes da Casa Branca, argumentando que a perda da receita petrolífera afetaria diretamente a capacidade do governo de pagar salários.

Antes da escalada militar mais recente, a maior parte do petróleo exportado por Kharg tinha como destino a China. No entanto, especialistas lembram que o mercado global de energia é altamente interconectado. Uma interrupção prolongada nas exportações iranianas poderia impactar os preços em todo o mundo.

Esse risco se torna ainda maior porque outros 3,5 milhões de barris por dia, provenientes principalmente do Iraque, também estão temporariamente fora do mercado devido ao fechamento do Estreito de Ormuz.

Analistas alertam que destruir ou danificar o terminal de Kharg poderia provocar um aumento prolongado no preço do petróleo, com efeitos diretos sobre a economia global. Além disso, a complexa infraestrutura da ilha poderia levar anos para ser reconstruída.

Há também um argumento político de longo prazo. Segundo especialistas, destruir a principal fonte de receita petrolífera do país poderia prejudicar qualquer eventual governo futuro no Irã, caso ocorra uma mudança de regime.

Uma eventual tentativa de tomar a ilha exigiria uma operação militar de grande escala, muito além de uma incursão típica de forças especiais. Mesmo que a captura de Kharg desse aos Estados Unidos maior influência sobre Teerã, analistas avaliam que a medida poderia gerar efeitos contrários aos esperados.

Tags: