O Brasil voltou a contar com um embaixador residente na Coreia do Norte depois de aproximadamente dez anos. O diplomata Ricardo Primo Portugal assumiu o posto em Pyongyang e iniciou os contatos com representantes estrangeiros instalados no país, marcando a retomada da presença diplomática brasileira em um dos territórios mais fechados do mundo. As informações são do NK News.
Segundo o veículo, Portugal realizou na quarta-feira (4) uma visita de cortesia ao embaixador chinês na Coreia do Norte, Wang Yajun. O encontro foi divulgado pela própria Embaixada da China em Pyongyang.

Durante a conversa, o representante brasileiro classificou as relações entre Brasil e China como um modelo de solidariedade e estabilidade entre grandes países. Wang, por sua vez, destacou o aprofundamento da parceria bilateral entre Beijing e Brasília.
A chegada do diplomata ocorre em um momento de movimentação na representação estrangeira na capital norte-coreana, que começa a receber novos diplomatas após anos de restrições provocadas pela pandemia de Covid-19 e pelo fechamento das fronteiras do país.
Relação diplomática ficou sem embaixador residente
A ausência de um embaixador brasileiro em Pyongyang não significou o rompimento das relações diplomáticas entre os dois países. Brasil e Coreia do Norte estabeleceram relações oficiais em 2001. A primeira missão diplomática brasileira chegou à capital norte-coreana em 2003, e a embaixada foi instalada em 2009.
A representação, entretanto, foi desativada entre janeiro de 2020 e junho de 2024, em consequência das restrições impostas durante a pandemia. O fechamento das fronteiras levou à retirada da maior parte do corpo diplomático estrangeiro. Mesmo após a retomada das atividades, o Brasil permaneceu sem um embaixador residente por vários anos.
A escolha de Ricardo Primo Portugal começou a avançar institucionalmente em fevereiro de 2026. Na ocasião, a Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou sua indicação por 12 votos favoráveis e nenhum contrário. O diplomata apresentou um plano de trabalho voltado à recuperação das relações econômicas e à retomada de acordos de cooperação agrícola.
De acordo com a Agência Senado, Portugal também defendeu a continuidade de investimentos que foram interrompidos pelas barreiras comerciais e pelas sanções internacionais impostas à Coreia do Norte.
O cenário econômico ajuda a explicar o tamanho do desafio. O comércio bilateral caiu de US$ 375 milhões em 2008 para US$ 45 milhões em 2012. Segundo os dados apresentados pelo Senado, as trocas comerciais entre os países estão atualmente praticamente paralisadas.
China e Rússia mudam o cenário
A retomada da representação brasileira acontece em um momento de transformação das relações internacionais da Coreia do Norte. O regime de Kim Jong-un ampliou sua aproximação com a Rússia, especialmente depois da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022.
A cooperação entre Moscou e Pyongyang passou a envolver fornecimento de armamentos e envio de tropas norte-coreanas para apoiar as forças russas na guerra. Em contrapartida, o governo de Kim busca benefícios militares, econômicos e tecnológicos.
Ao mesmo tempo, Beijing procura preservar sua influência sobre o vizinho. A China continua sendo o principal parceiro econômico da Coreia do Norte e tem interesse em evitar que o regime fique excessivamente dependente de Moscou.
Em reportagem publicada em março, A Referência analisou esse movimento em Nova ponte, mais comércio e diplomacia: China tenta retomar controle estratégico sobre a Coreia do Norte. O texto aborda a recuperação dos contatos diplomáticos, a ampliação da infraestrutura fronteiriça e o crescimento das trocas comerciais entre Beijing e Pyongyang.
Outro fator importante é a questão nuclear. Em julho, A Referência publicou a reportagem China abandona discretamente política histórica de desnuclearização da Coreia do Norte, mostrando como Beijing passou a evitar referências ao desarmamento nuclear norte-coreano em encontros de alto nível.
Essa mudança indica que a diplomacia chinesa pode estar priorizando a estabilidade regional e a preservação de sua influência sobre Pyongyang, em vez de pressionar diretamente Kim Jong-un a abandonar seu arsenal nuclear.
Oportunidade para o Brasil
A presença de um embaixador residente oferece ao Brasil melhores condições para acompanhar as movimentações políticas e econômicas da Coreia do Norte, além de estabelecer contatos diretos com autoridades locais.
A nomeação também abre espaço para uma tentativa de recuperar relações comerciais que perderam importância nas últimas décadas. A agricultura aparece como uma das áreas de possível cooperação, conforme o plano de trabalho apresentado por Portugal ao Senado.
Entretanto, a retomada dos negócios enfrenta obstáculos significativos. As sanções internacionais relacionadas aos programas nuclear e de mísseis balísticos de Pyongyang restringem operações comerciais, financeiras e investimentos em diversos setores.
O Brasil também precisa considerar o ambiente geopolítico em que essa aproximação acontece. A Coreia do Norte está cada vez mais integrada à estratégia militar russa, enquanto a China procura manter influência sobre o governo de Kim.