O acordo de Trump com o Irã pode realmente acabar com a ameaça nuclear?

Memorando de entendimento anunciado pelo chefe da Casa Branca prevê negociações de 60 dias para conter o programa nuclear iraniano. Especialistas divergem sobre a eficácia e a fiscalização do acordo

Um novo acordo nuclear entre Estados Unidos e Irã poderá redefinir o equilíbrio geopolítico do Oriente Médio. Anunciado pelo presidente Donald Trump, um memorando de entendimento prevê a abertura de negociações de dois meses para limitar o programa nuclear iraniano e eliminar o estoque de urânio altamente enriquecido do país. As informações são da Newsweek.

Segundo o vice-presidente JD Vance, Teerã concordou em eliminar seu estoque de urânio enriquecido como parte das condições para encerrar a guerra iniciada em fevereiro deste ano. O material, enriquecido a 60%, está próximo do nível necessário para a produção de armas nucleares, o que há anos desperta preocupação entre potências ocidentais e aliados dos Estados Unidos na região.

Usina Nuclear de Bushehr, no Irã (Foto: WikiCommons)

O acordo também prevê a reabertura do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas para o transporte global de petróleo, atualmente afetada pelo conflito. A expectativa é que o texto completo do memorando seja divulgado nos próximos dias.

Especialistas avaliam que a simples eliminação do estoque atual de urânio não encerra definitivamente as preocupações sobre o programa nuclear iraniano. O principal desafio está na verificação independente das medidas e na garantia de que o país não retome rapidamente o enriquecimento em níveis elevados.

A Associação de Controle de Armas (ACA), organização americana dedicada à não proliferação nuclear, afirma que a melhor alternativa seria a retirada do urânio altamente enriquecido sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), seguida de sua diluição para níveis inferiores a 5%, considerados adequados para uso civil em reatores nucleares.

De acordo com a entidade, os ataques realizados por Estados Unidos e Israel nos últimos dois anos atrasaram o desenvolvimento nuclear iraniano, mas não eliminaram a capacidade técnica do país de produzir uma arma atômica no futuro.

Enquanto Washington considera o acordo uma oportunidade diplomática histórica, o anúncio gerou forte reação em Israel. Autoridades israelenses criticaram a falta de participação direta nas negociações e demonstraram preocupação com a possibilidade de o Irã continuar mantendo atividades de enriquecimento de urânio em seu território.

O brigadeiro-general Yossi Kuperwasser, do Instituto de Estratégia e Segurança de Jerusalém, afirmou que o acordo deixa dúvidas sobre o cumprimento das exigências consideradas essenciais por Israel para impedir avanços nucleares iranianos.

Outro ponto considerado fundamental pelos especialistas é o papel da AIEA. A agência da ONU informou recentemente que ainda aguarda esclarecimentos do governo iraniano sobre a localização de estoques de urânio enriquecido e sobre a situação de instalações nucleares atingidas durante os ataques militares.

Analistas apontam que uma suspensão verificável do enriquecimento, associada a inspeções rigorosas e mecanismos internacionais de fiscalização, seria capaz de afastar o risco de proliferação nuclear por décadas. No entanto, o sucesso do acordo dependerá da confiança entre as partes e da capacidade de monitoramento internacional.

Caso as negociações avancem, o entendimento poderá representar a maior mudança na política nuclear iraniana desde o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), firmado em 2015 e abandonado pelos Estados Unidos durante o primeiro mandato de Trump.

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