A disputa pelo controle estratégico do Mar Vermelho está avançando para o litoral africano. Países como Sudão, Eritreia, Djibuti e Somália passaram a ocupar posição central na competição por portos, corredores comerciais, bases militares e acesso ao Oceano Índico, enquanto Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos ampliam sua presença no Chifre da África.
O movimento ocorre em um momento de crescente instabilidade na região. Os ataques dos houthis contra navios no Mar Vermelho, a guerra no Sudão, a retomada dos confrontos em Tigré e a disputa entre Etiópia e Eritreia pelo acesso ao litoral se sobrepõem à rivalidade entre Riad e Abu Dhabi. Segundo o Institute for Security Studies (ISS), esse conjunto de crises está formando um novo sistema de competição geopolítica ao redor do Mar Vermelho.
A geografia explica parte dessa transformação. O Mar Vermelho conecta o Mediterrâneo ao Oceano Índico por meio do Canal de Suez e do estreito de Bab el-Mandeb, entre Djibuti, Eritreia e Iêmen. Qualquer interrupção nessa passagem afeta diretamente uma das principais rotas do comércio mundial e aumenta a importância dos portos localizados na costa africana.

O Djibuti é o exemplo mais evidente. O pequeno país abriga instalações militares de várias potências e funciona como principal porta de entrada marítima da Etiópia, país sem litoral desde a independência da Eritreia, em 1993. A dependência etíope é tão grande que Addis Abeba vem tentando diversificar suas alternativas, incluindo negociações envolvendo Somalilândia e Eritreia. O Africa Center for Strategic Studies aponta que o fechamento ou a instabilidade no Bab el-Mandeb pode acelerar essa busca por novas rotas marítimas.
A questão ganhou uma dimensão ainda maior porque a Etiópia voltou a reivindicar acesso ao Mar Vermelho. Em declaração recente, o primeiro-ministro Abiy Ahmed voltou a afirmar que o país precisa de uma saída para o litoral para sustentar seu desenvolvimento. A posição aumenta a tensão com Eritreia, Somália, Egito e Sudão, que defendem a soberania dos países costeiros sobre o acesso ao mar. A Associated Press informou na segunda-feira (5) que Addis Abeba mantém a busca por uma saída marítima por meio de negociação, enquanto seus vizinhos reforçam a oposição a qualquer iniciativa unilateral.
A questão etíope já produziu uma crise diplomática com a Somália. Em 2024, Addis Abeba assinou um memorando com a Somalilândia para obter acesso a uma faixa do litoral e estudar a instalação de infraestrutura portuária e militar. Mogadíscio considerou o acordo uma violação de sua soberania. Em dezembro daquele ano, Turquia mediou um entendimento pelo qual os dois países concordaram em negociar o acesso comercial etíope ao mar sob soberania somali. A Referência acompanhou o acordo à época.
O porto de Berbera, na Somalilândia, tornou-se uma das peças desse tabuleiro. A infraestrutura é administrada pela DP World, empresa dos Emirados Árabes Unidos, que também desenvolveu uma zona econômica e um corredor terrestre voltado para a Etiópia. O porto oferece uma alternativa ao predomínio de Djibuti e, ao mesmo tempo, amplia a presença econômica dos Emirados em uma região estratégica.
É nesse ponto que a rivalidade entre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos ganha importância. Os dois países foram parceiros próximos em operações no Iêmen, mas passaram a defender interesses diferentes em partes do Oriente Médio e da África. Abu Dhabi utiliza investimentos em portos, infraestrutura e redes de segurança para ampliar sua influência, enquanto Riad procura fortalecer governos reconhecidos e construir alianças com Egito, Turquia, Somália e outros atores regionais. O ISS identifica essa disputa como um dos principais fatores de reorganização política do Chifre da África.
O Sudão é outro ponto decisivo. A guerra entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF) transformou Port Sudan em uma infraestrutura estratégica para o esforço de guerra e para a entrada de armas, equipamentos e pessoal. Os Emirados são acusados de apoiar a RSF, acusação que Abu Dhabi rejeita, enquanto Egito e Arábia Saudita mantêm relações mais próximas com as Forças Armadas Sudanesas.
A guerra sudanesa, portanto, não está isolada da disputa pelo Mar Vermelho. O país possui uma extensa costa e abriga Port Sudan, um dos principais pontos de conexão entre o interior africano e o corredor marítimo que leva ao Canal de Suez. O controle político e militar do litoral sudanês tem consequências que ultrapassam as fronteiras nacionais.
A Somália também se tornou alvo da competição. O governo federal rompeu relações com os Emirados em janeiro de 2026, mas a decisão foi rejeitada por Somalilândia e Puntland, que mantêm relações próprias com Abu Dhabi. Ao mesmo tempo, Turquia, Catar e Arábia Saudita ampliaram seus vínculos com o governo de Mogadíscio. A fragmentação política somali permite que diferentes potências estabeleçam relações diretamente com governos regionais e autoridades locais, tornando o litoral ainda mais disputado.
A Eritreia ocupa uma posição igualmente importante. O país controla uma extensa faixa da costa do Mar Vermelho e possui os portos de Massawa e Assab, próximos às principais rotas marítimas. A deterioração das relações com a Etiópia aumenta o valor estratégico desses portos, ao mesmo tempo em que aproxima Eritreia de Egito e Arábia Saudita. A Referência já havia apontado que o acesso ao Mar Vermelho é um dos elementos centrais da disputa entre Addis Abeba e Asmara.
A presença estrangeira não se limita aos países do Golfo. A União Europeia mantém operações navais no Mar Vermelho e no Golfo de Áden para proteger a navegação comercial e combater ameaças marítimas. Em julho, a UE e Djibuti assinaram um acordo para permitir a operação europeia ASPIDES, reforçando a dependência das forças navais estrangeiras em relação às instalações e ao apoio logístico africano.
O resultado é uma mudança no papel estratégico dos países africanos. Sudão, Eritreia, Djibuti e Somália não são apenas territórios afetados pelas disputas do Oriente Médio. Seus portos, litorais e corredores terrestres passaram a ser ativos pelos quais potências regionais e globais competem.
A tendência também altera a relação entre infraestrutura e segurança. Investimentos em portos, ferrovias, zonas econômicas e corredores comerciais estão cada vez mais associados a acordos militares, inteligência e cooperação de segurança. O ISS aponta que essa combinação pode aumentar o valor econômico dos países africanos, mas também pode incorporá-los a arquiteturas rivais de segurança e reduzir sua margem de manobra diplomática.