Morte de Navalny ganha novo capítulo com acusação envolvendo rãs-flecha sul-americanas

Cinco países europeus afirmam ter identificado a epibatidina como substância responsável pela morte de rival de Putin e levantam suspeitas sobre uso experimental de veneno exótico

A epibatidina, uma toxina extremamente potente encontrada em rãs-flecha da América do Sul, foi apontada por cinco países europeus como a substância que teria causado a morte do opositor russo Alexei Navalny. A conclusão foi apresentada por Reino Unido, França, Alemanha, Holanda e Suécia após análises conjuntas de amostras, dois anos depois da morte do líder político em uma prisão russa no Ártico. As informações são da France24.

Segundo o comunicado divulgado durante a Conferência de Segurança de Munique, os países afirmam ter “certeza” de que Navalny foi envenenado com uma toxina letal. A Rússia, por sua vez, nega as acusações e sustenta que a morte ocorreu por causas naturais.

Rã-flecha (Foto: WikiCommons)
O que é a epibatidina

A epibatidina é uma substância neurotóxica originalmente identificada em rãs-flecha venenosas do Equador. Estudos indicam que ela pode ser até 200 vezes mais potente que a morfina. Seu efeito atua sobre o sistema nervoso, bloqueando a transmissão de sinais e provocando sintomas como contrações musculares, convulsões, bradicardia, insuficiência respiratória e, em casos graves, morte.

Por exigir doses extremamente pequenas para ser letal, a toxina é considerada de difícil detecção em exames laboratoriais. Especialistas afirmam que, quando os investigadores não sabem exatamente qual substância procurar, a identificação se torna ainda mais complexa.

Por que usar um veneno raro?

Analistas internacionais questionam por que seria utilizado um veneno tão raro e exótico em um prisioneiro sob custódia do Estado. Entre as hipóteses levantadas estão a alta letalidade, a dificuldade de rastreamento e até a possibilidade de testes experimentais.

A epibatidina já foi estudada no passado por suas propriedades analgésicas, mas pesquisas foram abandonadas devido ao risco elevado de erro na dosagem. Cientistas afirmam que a substância pode ser sintetizada em laboratório, o que ampliaria seu potencial uso fora do ambiente natural.

Histórico de acusações de envenenamento

A Rússia já foi acusada anteriormente de utilizar substâncias tóxicas contra opositores e ex-agentes. Casos envolvendo o agente nervoso Novichok e o polônio-210 geraram forte repercussão internacional nos últimos anos.

O novo relatório europeu reacende o debate sobre o uso de armas químicas e toxinas raras em disputas políticas, além de ampliar a tensão diplomática entre Moscou e países do bloco europeu.

Ativista anticorrupção

Navalny ganhou destaque ao organizar manifestações e concorrer a cargos públicos na Rússia. A rede dele chegou a ter 50 sedes regionais em toda a Rússia e, entre outras ações, denunciava casos de corrupção envolvendo o governo Putin e figuras importantes ligadas a ele. Isso levou o Kremlin a agir judicialmente para proibir a atuação do opositor, que então passou a ser perseguido.

Em agosto de 2020, durante viagem à Sibéria, Navalny foi envenenado e passou meses se recuperando em Berlim. Ele voltou a Moscou em 17 de janeiro de 2021 e foi detido no aeroporto. Um mês depois, foi julgado e condenado por violar uma sentença suspensa de 2014, sob acusação de fraude. Promotores alegaram que ele não se apresentou regularmente à polícia em 2020, justamente quando estava em coma pela dose tóxica.

Encarcerado em uma colônia penal de alta segurança, ele chegou a fazer uma greve de fome de 23 dias em abril de 2021, para protestar contra a falta de atendimento médico. Depois, em junho daquele ano, um tribunal russo proibiu os escritórios regionais de Navalny e sua Fundação Anticorrupção (FBK) de funcionarem, classificando-os como “extremistas”.

Quando morreu, ele cumpria pena de 30 anos de prisão por acusações diversas, que vão desde fraude até extremismo, esta a mais grave. Ele sempre alegou que as acusações eram politicamente motivadas, uma forma de conter suas ações em oposição a Putin.

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