Papa diz que pediu encontro com Putin e cobrou posição firme do líder da Igreja Ortodoxa russa

Sem resposta de Moscou, pontífice diz que falou com o Patriarca Cirilo e contestou sua submissão: "Não se transforme no coroinha de Putin"
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O papa Francisco solicitou um encontro com o presidente russo Vladimir Putin para falar sobre a guerra na Ucrânia. E, ao menos até agora, não obteve um retorno do Kremlin. A revelação foi feita pelo próprio pontífice em entrevista ao jornal italiano Corriere Della Sera, publicada na terça-feira (3).

A proposta de encontro foi feita pelo Vaticano três semanas depois de iniciada a guerra. “Ainda não recebemos uma resposta e continuamos insistindo, mesmo que eu tema que Putin não possa e não queira ter este encontro agora”, disse o papa.

Francisco disse que não teve a oportunidade de conversar com Putin desde que a guerra começou, no dia 24 de fevereiro. “No primeiro dia da guerra liguei para o presidente ucraniano Zelensky no telefone”, contou o papa, que adotou estratégia diferente com o líder russo, solicitando o encontro pessoal. “Eu queria fazer um gesto claro para o mundo inteiro ver e por isso fui ao embaixador russo”.

Papa Francisco na 70ª Assembleia Geral da ONU, setembro de 2015 (Foto: UN Photo/Kim Haughton)

Questionado se pretende visitar a Ucrânia, o líder da Igreja Católica descartou essa hipótese e reafirmou sua prioridade. “Sinto que não preciso ir. Primeiro tenho que ir a Moscou, primeiro tenho que conhecer Putin”, disse o papa.

Já preparado para a possibilidade de não encontrar com Putin, o papa Francisco disse ter traçado uma estratégia alternativa: usar a influência do patriarca Cirilo, líder da Igreja Ortodoxa Russa e aliado do presidente, para tentar selar a paz.

Segundo o pontífice, os dois conversaram recentemente pela internet. “Falei com Ciliro durante 40 minutos via Zoom. Nos 20 primeiros [minutos], com um cartão na mão, ele me leu todas as justificativas para a guerra”, conta o papa, que afirma ter pressionado o russo para usar a influência na tentativa de parar a guerra. “Irmão, não somos clérigos de Estado, não podemos usar a linguagem da política, mas a de Jesus”, disse ele. “O patriarca não pode se transformar no coroinha de Putin“.

Por que isso importa?

A escalada de tensão entre Rússia e Ucrânia, que culminou com a efetiva invasão russa ao país vizinho, no dia 24 de fevereiro, remete à anexação da Crimeia pelos russos, em 2014, e à guerra em Donbass, que começou naquele mesmo an. Aquele conflito foi usado por Vladimir Putin como argumento para justificar a invasão integral, classificada por ele como uma “operação militar especial”.

“Tomei a decisão de uma operação militar especial”, disse Putin pouco depois das 6h de Moscou (0h de Brasília) de 24 de fevereiro. Cerca de 30 minutos depois, as primeira explosões foram ouvidas em Kiev, capital ucraniana, e logo em seguida em Mariupol, no leste do país.

No início da ofensiva, o objetivo das forças russas era dominar Kiev, alvo de constantes bombardeios. Entretanto, diante da inesperada resistência ucraniana, a Rússia foi forçada a mudar sua estratégia. As tropas, então, começaram a se afastar de Kiev e a se concentrar mais no leste ucraniano, a fim de tentar assumir definitivamente o controle de Donbass e de outros locais estratégicos naquela região.

Em meio ao conflito, o governo da Ucrânia e as nações ocidentais passaram a acusar Moscou de atacar inclusive alvos civis, como hospitais e escolas, dando início a investigações de crimes de guerra ou contra a humanidade cometidos pelos soldados do Kremlin.

O episódio que mais pesou para as acusações foi o massacre de Bucha, cidade ucraniana em cujas ruas foram encontrados dezenas de corpos após a retirada do exército russo. As imagens dos mortos foram divulgadas pela primeira vez no dia 2 de abril, por agências de notícias, e chocaram o mundo.

O jornal The New York Times realizou uma investigação com base em imagens de satélite e associou as mortes em Bucha a tropas russas. As fotos mostram objetos de tamanho compatível com um corpo humano na rua Yablonska, entre 9 e 11 de março. Eles estão exatamente nas mesmas posições em que foram descobertos os corpos quando da chegada das tropas ucranianas, conforme vídeo feito por um residente da cidade em 1º de abril.

Fora do campo de batalha, a Rússia tem sido alvo de todo tipo de sanções. As esperadas punições financeiras impostas pelas principais potencias globais já começaram a sufocar a economia russa, e o país tem se tornado um pária global. Desde a invasão da Ucrânia, em 24 de fevereiro, mais de 600 empresas ocidentais deixaram de operar na Rússia, seja de maneira temporária ou definitiva, parcial ou integral.

Os mortos de Putin

Desde que assumiu o poder na Rússia, em 1999, o presidente Vladimir Putin esteve envolvido, direta ou indiretamente, ou é forte suspeito de ter relação com inúmeros eventos, que levaram a dezenas de milhares de mortes. A lista de vítimas do líder russo tem soldados, civis, dissidentes e até crianças. E vai aumentar bastante com a guerra que ele provocou na Ucrânia.

Na conta dos mortos de Putin entram a guerra devastadora na região do Cáucaso, ações fatais de suas forças especiais que resultaram em baixas civis até dentro do território russo, a queda suspeita de um avião comercial e, em 2022, a invasão à Ucrânia que colocou o mundo em alerta.

A Referência organizou alguns dos principais incidentes associados ao líder russo. Relembre os casos.

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