A Ucrânia voltou a colocar o combate à corrupção no centro do debate político ao investigar figuras ligadas ao círculo próximo do presidente Volodymyr Zelensky. As apurações, conduzidas por órgãos anticorrupção criados após as reformas implementadas na última década, são vistas por analistas e autoridades europeias como um teste para a capacidade das instituições ucranianas de atuar de forma independente mesmo em meio à guerra contra a Rússia. As informações são do The Telegraph.
Um dos casos de maior repercussão é a chamada Operação Midas, revelada pelo Gabinete Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU). A investigação apura um suposto esquema de desvio de aproximadamente US$ 100 milhões envolvendo contratos da estatal de energia nuclear Energoatom. Entre os nomes citados está Timur Mindich, empresário e antigo aliado de Zelensky, que nega qualquer irregularidade.

As investigações também alcançaram Andriy Smyrnov, ex-chefe adjunto do gabinete presidencial. Ele responde a acusações relacionadas à lavagem de dinheiro, mas nega as alegações. O caso ganhou destaque internacional por envolver pessoas que ocuparam posições de influência dentro da estrutura de poder ucraniana.
Especialistas apontam que o avanço dessas investigações demonstra a atuação de um sistema formado por três pilares: instituições anticorrupção independentes, uma sociedade civil ativa e o apoio financeiro e político de parceiros internacionais. Esse modelo começou a ser consolidado após a Revolução da Dignidade, em 2014, quando manifestações populares pressionaram por reformas e maior transparência no Estado.
Em 2025, o Parlamento ucraniano aprovou uma legislação que reduzia a autonomia dos órgãos anticorrupção. A medida provocou protestos em diversas cidades do país e gerou preocupação na União Europeia (UE), que alertou para possíveis impactos no processo de adesão de Kiev ao bloco. Diante da pressão interna e externa, a proposta acabou sendo revertida.
A Comissão Europeia classificou as investigações recentes como um sinal de que as instituições do país continuam funcionando mesmo em circunstâncias excepcionais. Para autoridades europeias, a capacidade de responsabilizar figuras influentes fortalece a credibilidade da Ucrânia diante de seus parceiros internacionais.
O tema também alimenta o debate sobre o apoio ocidental ao país. Enquanto críticos argumentam que casos de corrupção podem comprometer a confiança internacional, defensores da Ucrânia afirmam que a existência de investigações independentes demonstra justamente a evolução institucional do Estado ucraniano.
Em meio à guerra, o combate à corrupção permanece como uma das principais exigências da sociedade ucraniana e um fator considerado essencial para a reconstrução do país e para sua aproximação com a UE.