Queda de aplicativos de mensagem gera troca de acusações na Rússia: ciberataque ou censura?

WhatsApp e Telegram ficaram fora do ar na quarta-feira, levantando a suspeita de que o governo russo tenha imposto um bloqueio

Os aplicativos de mensagem WhatsApp e Telegram ficaram fora do ar por um breve período na Rússia na quarta-feira (21), levando a uma troca de acusações entre o governo e analistas de segurança digital. Enquanto Moscou afirma que o problema foi causado por um ciberataque, os especialistas denunciam censura por parte do governo. As informações são do jornal The Moscow Times.

Roskomnadzor, órgão estatal regulador da mídia na Rússia, afirmou que um ataque de negação de serviço distribuído (DDoS) contra operadoras de telecomunicações russas levou a uma queda em serviços digitais no país. Trata-se de uma operação na qual os cibercriminosos enviam a um canal digital múltiplas solicitações de acesso, a fim de exceder o limite estabelecido e derrubar o serviço.

Aplicativo de mensagens russo Telegram (Foto: Christian Wiediger/Unsplash)

O argumento, entretanto, é refutado por analistas de segurança digital, segundo os quais há indícios de uma ação do governo russo. Um deles é a queda não apenas dos aplicativos de mensagens, mas também de outros canais, como a enciclopédia online Wikipedia, a rede social russa VK e o site de buscas local Yandex, uma versão russa do Google.

“Isso geralmente acontece quando eles ativam o chamado ‘modo antimensageiro’, disse Mikhail Klimarev, diretor da empresa de segurança digital Internet Defense Society, citando uma operação de censura por parte de Moscou voltada a conter a disseminação de conteúdo indesejado.

“O Roskomnadzor, aparentemente, tentou bloquear o Telegram, e então o bloqueio do Telegram está abalando outros recursos. Isto já aconteceu em 2018, foi exatamente o mesmo cenário”, afirmou Stanislav Shakirov, diretor técnico da Roskomsvoboda, ONG de defesa de redes abertas e dos direitos digitais.

Outro indícios de que o problema não provém de um ataque de hackers é o fato de que não apenas os russos foram afetados. Os analistas dizem que mais países da Ásia Central tiveram queda nos mesmos serviços. Em comum há o fato de que o tráfego de internet para as nações afetadas passa pela Rússia.

“É impossível organizar um DDoS em cada operadora. Se esse fosse o caso, todas as operadoras estariam inativas, não apenas serviços selecionados”, reforçou Filipp Kulin, criador de um canal no Telegram que rastreia bloqueios online impostos pelo Roskomnadzor.

A suspeita recai sobre Moscou no momento em que o governo russo intensifica a censura digital, sobretudo com o objetivo de conter a propagação de críticas à guerra da Ucrânia. No caso específico do Whatsapp, também pesa o fato de que a Meta, empresa que controla o aplicativo, foi classificada como “extremista” no país.

Duas redes sociais ocidentais geridas pela Meta, o Facebook e o Instagram, são bloqueadas na Rússia, enquanto o aplicativo de mensagens segue funcionando somente porque conta com uma enorme base de usuários, cerca de 80 milhões.

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