Satélites e redes sociais expõem preparativos da Rússia para invadir a Ucrânia

Tecnologia não dá muita margem a dúvida e aponta a presença crescente de tropas russas em áreas próximas às fronteiras ucranianas
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Nos últimos meses, a Rússia tem sido acusada pelos EUA e seus aliados de posicionar tropas na região de fronteira com a Ucrânia, preparando-se, assim, para invadir o país vizinho. Fala-se em um contingente de quase 150 mil soldados. Moscou desmente essas informações e nega a intenção de atacar. Se não há dados oficiais sobre a mobilização militar russa, como surgem tais números? A resposta está nas redes sociais, como o Twitter, e em satélites capazes de registrar imagens que deixam pouca margem à dúvida. As informações são do site Market Watch.

Os primeiros sinais de movimentação militar detectados através de satélites surgiram em meados de 2021, mas apenas em dezembro eles se tornaram preocupantes. “Começamos a ver coisas um pouco incomuns”, diz Lukas Andriukaitis, diretor associado da Digital Forensic, em Bruxelas, um laboratório de pesquisa operado pelo think tank norte-americano Atlantic Council.

Imagens de satélite mostram tropas da Rússia perto da fronteira com a Ucrânia (Foto: reprodução/maxar technologies)

Então, era possível constatar o acúmulo de equipamento militar e de soldados em Belarus, colocando a comunidade internacional em alerta para a possibilidade de uma futura invasão da Ucrânia. A partir dali, os satélites foram bloqueados, tornando-se necessário buscar informações em outras fontes.

Um bom material foi obtido nos bancos de dados públicos do sistema ferroviário da Rússia, onde havia imagens de vagões de trem com números de identificação. Cruzando essas imagens com bancos de dados, era possível determinar de onde vieram e quais unidades ou equipamentos foram transportados.

Outra importante ferramenta são as imagens disponíveis nas redes sociais, acompanhadas das ferramentas que permitem verificar sua autenticidade, como geolocalização e metadados.

É também a rede social que serve de uma plataforma para operadores de OSINT (inteligência de código aberto, da sigla em inglês) compartilharem seu trabalho com o público. Foi esse o sistema citado pelo secretário-geral da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), Jens Stoltenberg, ao desmentir a informação dada por Moscou de que estava reduzindo o efetivo militar nas regiões de fronteira, quando na verdade estava aumentando.

“Temos sido muito transparentes. E a inteligência que estamos compartilhando é realmente confirmada também com fontes abertas, com as imagens de satélites comerciais”, disse Stoltenberg em entrevista coletiva na quarta-feira (16).

Tom Bullock, operador de OSINT, foi um dos que usaram o Twitter para apresentar evidências de aumento da presença russa em posição de ataque. “Esta filmagem mostra o oposto do que a Rússia afirma estar acontecendo. Os T-72B3M estão se movendo de Otreshkovo e sua estação ferroviária para o campo de treinamento de Postyalye Dvory, não para longe do acampamento”, disse ele.

As ferramentas disponíveis tornam quase impossível a missão de enganar os observadores. E a Rússia tem consciência disso, o que levanta a possibilidade de que o Kremlin de fato quer ter sua movimentação notada. “Você tem a oportunidade de sinalizar as coisas porque sabe que será visto”, afirma Jeffrey Lewis, professor do Instituo Middlebury de Estudos Internacionais, em Monterey, Califórnia.

Andriukaitis, que foi oficial das forças armadas da Lituânia, diz que Moscou pode até usar isso a seu favor. Ao seu mostrar como uma ameaça real e relevante, passa a ter poder de barganha nas negociações diplomáticas. E, caso falhe a diplomacia, o problema não é tão grande. Afinal, as descobertas, segundo ele, “não afetarão em nada suas operações no nível estratégico”.

Por que isso importa?

A escalada de tensão entre Rússia e Ucrânia remete à anexação da Crimeia pelos russos, em 2014, e à guerra em Donbass, que começou naquele mesmo ano e segue até hoje.

O conflito armado no leste da Ucrânia, que já matou mais de dez mil pessoas, opõe o governo ucraniano às forças separatistas das autodeclaradas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, que formam a região de Donbass e contam com o suporte de Moscou. Em 2021, a situação ficou especialmente delicada, com a ameaça de uma invasão integral da Rússia à Ucrânia.

Washington tem monitorado o crescimento do exército russo na região fronteiriça e compartilha com seus aliados informações de inteligência. Os dados apontam um aumento de tropas e artilharia russas que permitiriam um avanço rápido e em grande escala, bastando para isso a aprovação de Putin e a adoção das medidas logísticas necessárias.

A inteligência da Ucrânia calcula a presença de mais de 120 mil tropas nas regiões de fronteira, enquanto especialistas calculam que sejam necessárias 175 mil para uma invasão. Já a inteligência dos EUA afirma que um eventual ataque ao país vizinho por parte da Rússia ocorreria pela Crimeia e por Belarus.

Um conflito, porém, não seria tão fácil para Moscou. Isso porque, desde 2014, o Ocidente ajudou a Ucrânia a desenvolver e ampliar suas forças armadas, com fornecimento de armamento, tecnologia e treinamento. Assim, embora Putin negue qualquer intenção de lançar uma ofensiva, se isso ocorrer, as tropas russas enfrentariam um exército ucraniano muito mais capaz de resistir.

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