Do pacifismo à dissuasão: países repensam a bomba em meio colapso da ordem internacional

De aliados históricos dos EUA a economias estáveis, novas potências avaliam arsenais nucleares diante de um cenário de insegurança crescente e colapso de tratados

Por André Amaral

O mundo pode estar entrando em uma nova era nuclear, e, desta vez, o impulso não vem apenas de regimes isolados ou potências tradicionais, mas de países historicamente considerados estáveis, pacíficos ou alinhados ao Ocidente.

Relatórios recentes e análises da imprensa internacional coletados por A Referência indicam uma mudança silenciosa, porém profunda: na ausência de garantias de segurança confiáveis, Estados começam a reconsiderar o impensável: desenvolver armas nucleares.

Segundo análise do think tank Just Security, “países como Coreia do Sul e Arábia Saudita” devem avançar em 2026 tanto na capacidade técnica quanto na motivação política para construir uma bomba. A lógica é direta: em um mundo onde rivais possuem armas nucleares, não tê-las pode significar vulnerabilidade estratégica.

Treinamento para detectar contaminação radioativa ao redor de uma arma nuclear simulada na Base Aérea de Kunsan, República da Coreia, setembro de 2025 (Fotos: WikiCommons)

Essa mudança ocorre em paralelo ao enfraquecimento dos principais acordos de controle nuclear. O fim ou esvaziamento de tratados históricos entre Estados Unidos e Rússia abriu espaço para uma nova corrida armamentista, agora mais fragmentada e imprevisível, relatou artigo da Foreign Policy.

A própria noção de dissuasão — a ideia de que armas nucleares evitam guerras — voltou ao centro do debate. Um artigo recente do jornal britânico The Times chega a argumentar que, no caso da Coreia do Norte, possuir armas nucleares foi uma “estratégia racional de sobrevivência do regime” .

Esse raciocínio começa a ecoar em outras regiões. No Oriente Médio, especialistas alertam que um eventual avanço nuclear do Irã pode desencadear um efeito dominó. Países como Turquia, Arábia Saudita e Egito já são citados como potenciais candidatos a buscar ou desenvolver armas nucleares, detalhou artigo do Project Syndicate. Em paralelo, o programa iraniano segue sendo um dos principais pontos de tensão global, com estoques de urânio enriquecido próximos ao nível necessário para armamento, segundo a Associated Press.

Na Ásia, a situação não é menos delicada. A Coreia do Norte continua expandindo rapidamente sua capacidade nuclear, com indícios de novos complexos de enriquecimento e produção de material bélico, segundo a Reuters. Esse avanço pressiona vizinhos como Japão e Coreia do Sul, que passam a discutir, ainda que de forma indireta, alternativas nucleares próprias.

O fenômeno não se limita a regiões de conflito direto. Na Europa, líderes já discutem a ampliação de dissuasão nuclear no continente, diante de dúvidas sobre o compromisso militar dos Estados Unidos, segundo o Centro para o Controle de Armas e a Não Proliferação.

Ao mesmo tempo, o crescimento do uso de energia nuclear civil amplia um risco adicional: mais países com tecnologia nuclear significa mais países com capacidade potencial de desenvolver armas, ainda que não seja esse o objetivo inicial, de acordo com o Cepa.

Hoje, apenas nove países possuem oficialmente armas nucleares. Ainda assim, o número total de ogivas operacionais se aproxima de 10 mil, e está voltando a crescer após décadas de redução, disse artigo da Visual Capitalist.

O que muda em 2026 não é apenas a quantidade de armas, mas quem considera tê-las. O cenário é descrito por especialistas como o início de uma “terceira era nuclear”, marcada por múltiplos atores, menos controle e maior imprevisibilidade, relata a Stimson Center. Diferente da Guerra Fria, onde duas superpotências ditavam as regras, o mundo atual caminha para uma rede difusa de países com capacidade nuclear. Ou à beira dela.

No fim, a pergunta que paira sobre a geopolítica global não é mais quem tem a bomba, mas quem acha que precisa dela para sobreviver. E essa lista está crescendo.

Brasil reforça programa nuclear militar sem intenção bélica

O Brasil mantém posição formal de uso exclusivamente pacífico da energia nuclear e segue como signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP). Ainda assim, o país avança no desenvolvimento do submarino de propulsão nuclear dentro do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), considerado o projeto mais sensível da defesa nacional.

Em declaração recente, a Marinha do Brasil afirmou que o submarino nuclear “Álvaro Alberto” é voltado à proteção da chamada “Amazônia Azul” e à soberania marítima, sem qualquer relação com armamentos nucleares. A força naval destacou que o projeto representa um “incremento sem precedentes no poder naval brasileiro” e segue sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Álvaro Alberto é um projeto de submarino nuclear, desenvolvido pela Marinha do Brasil e que se encontra em fase de construção

O governo federal também reforça o caráter civil e estratégico do programa. Em documento oficial, o Planalto afirma que o objetivo é desenvolver uma “planta nuclear de potência embarcada” para fins de defesa e avanço tecnológico, dentro de padrões internacionais de não proliferação .

Na prática, o Brasil consolida uma posição rara: domina parte crítica do ciclo do combustível nuclear e desenvolve tecnologia sensível de propulsão, ao mesmo tempo em que sustenta compromisso diplomático explícito contra a produção de armas atômicas.

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