Oriente Médio

Meninas afegãs usam a internet para driblar o veto do Taleban à educação

Aulas online têm permitido a elas dar sequência à vida acadêmica, além de abrir um leque de outras opções de cursos extracurriculares

A internet tornou-se a principal aliada de centenas de meninas afegãs proibidas de frequentar a escola desde que o Taleban ascendeu ao poder no país, com a tomada de Cabul no dia 15 de agosto. As aulas online têm permitido a elas dar sequência à vida acadêmica, além de abrir um leque de outras opções de cursos extracurriculares, segundo a rede Gandhara.

“Isso envia uma mensagem clara ao Taleban”, disse Maryam, uma estudante que usa apenas o primeiro nome com medo de represálias por parte dos talibãs. “Pode vir, que nós podemos promover nossas aulas online. Jamais impediremos o progresso de nosso país”.

Ela é uma de cerca de mil meninas inscritas para ter aulas na Escola Online de Herat, que já previa a repressão e deu início ao curso à distância tão logo o Taleban chegou ao poder. A iniciativa é da educadora afegã Angela Ghayour, que deixou a cidade de Herat nos anos 1990, quando era criança, viveu como refugiada no Irã e hoje mora no Reino Unido.

Meninas afegãs usam a internet para driblar a proibição do Taleban à educação
Meninas do ensino fundamental já voltaram à escola no Afeganistão, mas acima dos 12 anos a educação está proibida (Foto: Sayed Bidel/Unicef)

“O objetivo é prevenir a discriminação na educação”, diz Ghayour, que usou o nome de sua cidade natal para batizar a escola, mas oferece as aulas gratuitamente a meninas de todo o país. “No Afeganistão, a discriminação de gênero privou meninas e mulheres de seu direito à educação. No Irã, as famílias afegãs são discriminadas na educação porque não têm autorização de residência”, conta ela, relembrando seu passado como refugiada.

Na sua escola, a educadora conta com professores voluntários e usa doações para viabilizar o acesso de muitas meninas à tecnologia necessária para o estudo. Segundo ela, há casos de alunas que só conseguem assistir às aulas à noite, pois precisam esperar que o pai volte do trabalho para usar o único aparelho da casa.

Na escola gerida por Ghayour, as meninas estudam não apenas as matérias da grade curricular habitual. Elas têm aulas inclusive de temas censurados pelo Taleban, como música e outros assuntos ligadas à arte. O grupo de voluntários a serviço da instituição de ensino é até agora de cerca de 200, com mais 300 pessoas prontas para serem incorporadas conforme a necessidade.

Aulas presenciais

Quando assumiu o poder e a questão da educação feminina veio à tona, o Taleban afirmou que não retomaria a repressão absoluta de seu governo anterior, entre 1996 e 2001, quando proibiu meninas e mulheres de estudarem. Porém, o governo extremista tem postergado uma tomada de decisão, o que mantém fora da escola as meninas acima dos sete anos de idade em diversas regiões do país.

Por ora, cinco províncias do país já permitem que as meninas frequentem a escola, e o Taleban anunciou a abertura do Complexo Educacional Moraa voltado exclusivamente à educação de meninas órfãs.

Por que isso importa?

A repressão de gênero não se limita ao campo da educação. As mulheres que tinham cargos no governo afegão antes da ascensão talibã seguem impedidas de trabalhar, e a cúpula do governo que prometia ser inclusiva é formada somente por homens. Mulheres também não podem sair de casa desacompanhadas, e há relatos de solteiras e viúvas forçadas a se casar com combatentes.

Para lembrar as afegãs de suas obrigações, os militantes ergueram cartazes em algumas áreas para informar os moradores sobre as regras. Em partes do país, as lojas estão proibidas de vender mercadorias a mulheres desacompanhadas.

Há também um código de vestimenta para as mulheres, forçadas a usar burcas pretas quando estão em público. Como forma de protestar, mulheres afegãs em todo o mundo iniciaram um movimento online, postando fotos nas redes sociais com tradicionais roupas afegãs coloridas, sempre acompanhadas de hashtags como #AfghanistanCulture (cultura afegã) e #DoNotTouchMyClothes (não toque nas minhas roupas).

A proibição do esporte feminino é outra realidade sob o governo talibã. Embora o grupo extremista não tenha emitido uma nota oficial sobre o veto, ele se faz presente na rotina das atletas afegãs. Depois do críquete feminino, cuja proibição foi anunciada pelo vice-líder da comissão cultural do Taleban, Ahmadullah Wasiq, a repressão atingiu outra modalidade muito popular no país: o taekwondo.

O Afeganistão tem apenas duas medalhas olímpicas em sua história: dois bronzes conquistados pelo atleta do taekwondo Rohullah Nikpai em Beijing 2008 e Londres 2012. As conquistas de Nikpai no masculino popularizaram o esporte no país, inclusive entre as mulheres. Porém, agora que o Taleban assumiu o poder, a prática tem se restringido aos homens, e as escolas que ofereciam aulas de taekwondo para mulheres fecharam as portas.