Ásia e Pacífico

Taleban se diz pronto para firmar acordos bilionários de mineração com a China

“A China é uma vizinha e tem uma economia forte. Estamos tentando desenvolver relações comerciais e econômicas”, diz vice-ministro talibã

A China planeja investir bilhões de dólares no Afeganistão, sob a condição de que o Taleban garanta a segurança das propriedades e dos trabalhadores chineses. A afirmação foi feita pelo vice-ministro talibã de Informação e Cultura, Zabihullah Mujahid, em entrevista à rede norte-americana Voice of America (VOA).

O interesse talibã em buscar um parceiro comercial se explica pela necessidade urgente de gerar riqueza no Afeganistão, que sofre com sanções globais e tem uma economia em frangalhos. E, num país historicamente pobre, a principal fonte de dinheiro tende a ser a exploração mineral, que esconde uma riqueza avaliada em até US$ 1 trilhão.

“A situação econômica está voltando à normalidade”, diz Mujahid. “Estamos coletando recursos nacionais, e nossos traders estão prontos para investir. O trabalho em grandes projetos, incluindo construção de estradas, está em andamento. E estamos próximos de assinar acordos de exploração (mineral) com alguns países”.

Ao menos num primeiro momento, Beijing surge como parceiro ideal, também pela forte atuação global do país no setor de mineração. “A China é uma vizinha e tem uma economia forte. Estamos tentando desenvolver relações comerciais e econômicas com eles. No entanto, embora desejemos que a China tenha comércio e investimentos conosco, não vamos tolerar qualquer interferência em nossos assuntos internos”, afirma Mujahid, num recado que se estende a demais interessados.

Sítio arqueológico de Mes Aynak também abriga uma mina de cobre (Foto: Jerome Starkey/Flickr)

O vice-ministro confirmou que um dos focos da negociação é a região Mes Aynak, onde se localiza uma das maiores minas de cobre do Afeganistão. “É uma das áreas importantes onde eles querem investir bilhões de dólares, e o Afeganistão também precisa disso. Prometemos a eles segurança para seus investimentos e ativos”, afirmou Mujahid.

E a China já está de olho em Mes Aynak faz tempo. Em 2007, a estatal China Metallurgical Group (MCC) firmou um contrato para desenvolver o campo da mina de cobre local. O investimento chegaria a US$ 2,8 bilhões, envolvendo a construção de uma usina de energia elétrica e estradas de ferro, além da geração de 5 mil empregos para cidadãos afegãos. O projeto foi interrompido desde a queda de Cabul, mas tende a ser retomado.

Além da mina, Mes Aynak abriga um sítio arqueológico com as ruínas de uma cidade budista de cerca de 1,6 mil anos. Porém, as ferramentas usadas nas escavações foram retiradas de lá, e membros do Taleban têm visitado o local por razões até então desconhecidas. Agora, com as declarações do governo talibã, tudo indica que o objetivo seja firmar um contrato de mineração na área.

Por que isso importa?

Segundo relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) publicado em maio deste ano, a exploração de riqueza mineral não é novidade para os talibãs. Ela ocorre desde antes da retirada das tropas dos Estados Unidos e da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), finalizada em agosto.

“O Mulá Yaqub (vice-líder talibã e filho de um dos fundadores do grupo) buscou maior independência financeira para o Taleban, em parte concentrando esforços no controle de áreas ricas em minerais inexploradas do Afeganistão. Um Estado-Membro estimou que, em 2020, os lucros do setor de mineração renderam ao Taleban aproximadamente US$ 464 milhões”, diz o documento.

A informação é reforçada pela ONG britânica Global Witness, que monitora corrupção global e sua relação com a exploração mineral. Segundo a entidade, em junho de 2016, elementos armados antigovernamentais, incluindo o Taleban, faturam até US$ 20 milhões anualmente com a mineração ilegal da rocha lápis-lazúli no Afeganistão.