A possibilidade de os Estados Unidos reduzirem drasticamente seu compromisso com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) levou países europeus a discutirem, nos bastidores, um “Plano B” para garantir a própria defesa militar diante da ameaça russa.
Segundo reportagem publicada pela revista britânica The Economist, oficiais e autoridades de defesa da Europa vêm elaborando cenários secretos para atuar sem o apoio militar americano e até mesmo fora da estrutura tradicional da Otan.
O movimento ganhou força após uma série de decisões do presidente Donald Trump, que voltou a questionar o compromisso dos EUA com a aliança militar ocidental durante seu segundo mandato.

Entre as medidas anunciadas estão o cancelamento do envio de tropas americanas para a Polônia, a retirada de milhares de soldados da Alemanha e o congelamento de projetos estratégicos de defesa no continente europeu.
Além disso, declarações de Trump sobre a Groenlândia causaram preocupação entre aliados europeus. Em janeiro, o presidente ameaçou tomar o território da Dinamarca, o que aumentou o temor de que os EUA possam agir de forma imprevisível dentro da própria Otan.
“Percebemos que precisamos de um Plano B”, afirmou um oficial de defesa sueco ouvido pela publicação.
Europa teme enfraquecimento da Otan
A Otan foi criada em 1949 e tem como principal princípio o Artigo 5, que determina que um ataque contra um membro da aliança deve ser considerado um ataque contra todos.
O problema, segundo especialistas, é que a estrutura de comando da organização depende fortemente dos Estados Unidos. O cargo de comandante supremo aliado na Europa (SACEUR), por exemplo, é tradicionalmente ocupado por um general americano.
“A liderança dos EUA é a cola que mantém a aliança unida”, afirmou Luis Simón, diretor do Centro de Segurança, Diplomacia e Estratégia da Universidade Livre de Bruxelas.
Sem os americanos, autoridades europeias temem uma fragmentação da capacidade de resposta militar do continente.
Força liderada pelo Reino Unido surge como alternativa
Entre os modelos discutidos está a ampliação da chamada Força Expedicionária Conjunta (JEF, da sigla em inglês), coalizão militar liderada pelo Reino Unido e formada principalmente por países nórdicos e bálticos.
Criada em 2014, a JEF reúne nações como Suécia, Finlândia, Noruega e os países bálticos, funcionando paralelamente à Otan.
O grupo possui estrutura própria de planejamento, logística e comunicação segura, permitindo respostas rápidas sem necessidade de consenso unânime entre todos os integrantes da Otan.
Especialistas avaliam que essa força poderia se tornar a base de uma futura defesa europeia independente dos Estados Unidos.
Alemanha e França ganham protagonismo
O debate também reforça a pressão para que potências europeias ampliem investimentos militares. A Alemanha já anunciou aumento histórico no orçamento de defesa, enquanto a França busca ampliar sua influência estratégica no continente.
Mesmo assim, militares europeus reconhecem que substituir completamente a capacidade militar americana seria um desafio gigantesco, especialmente nas áreas de inteligência, vigilância, logística e dissuasão nuclear.
O temor central é que a Europa permaneça dependente de um aliado considerado cada vez mais imprevisível.
“Uma dissuasão baseada em alguém que talvez não apareça não é dissuasão nenhuma”, resume a reportagem da The Economist.