Exercícios militares do BRICS ganham peso geopolítico, mas Brasil e Índia ficam de fora

Manobras navais lideradas por China e Rússia reacendem debate sobre o papel do bloco, enquanto Brasil opta por não participar

Exercícios navais conjuntos envolvendo países do BRICS começaram na costa da África do Sul e colocaram novamente o bloco no centro do debate geopolítico internacional. Batizadas de “Will for Peace 2026” (“Vontade de Paz”, em tradução literal), as manobras reúnem até 16 de janeiro, além do país-sede, China, Rússia, Irã e Emirados Árabes Unidos, em um contexto marcado por tensões crescentes com os Estados Unidos e por divisões internas entre os próprios membros fundadores. As informações são da Al Jazeera.

As atividades ocorrem em Simon’s Town, na confluência dos oceanos Índico e Atlântico, e incluem treinamentos de resgate, operações de ataque marítimo e intercâmbios técnicos entre as marinhas participantes. Segundo autoridades sul-africanas e chinesas, o objetivo central é reforçar a cooperação naval e a segurança das rotas comerciais marítimas.

Apesar disso, dois dos cinco membros fundadores do BRICS, Índia e Brasil, decidiram não participar diretamente dos exercícios. O Brasil acompanha as manobras apenas como observador, enquanto a Índia optou por se manter completamente afastada.

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O que são os jogos militares do BRICS

Os exercícios Vontade de Paz 2026 fazem parte de uma iniciativa ligada ao chamado BRICS Plus, formato ampliado do bloco que inclui novos países convidados a cooperar em áreas estratégicas. Além dos membros fundadores, o grupo passou a incorporar nações como Irã, Egito, Etiópia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

De acordo com o governo da África do Sul, anfitrião das manobras, a iniciativa busca fortalecer a segurança marítima e garantir a liberdade de navegação em um cenário internacional cada vez mais instável. Autoridades militares destacam que os exercícios não se limitam a treinamentos técnicos, mas funcionam como uma sinalização política de cooperação entre países do Sul Global.

Por que Índia e Brasil ficaram de fora

A ausência da Índia nos exercícios militares do BRICS está diretamente ligada à tentativa de Nova Délhi de equilibrar suas relações com os Estados Unidos. Desde o retorno de Donald Trump à presidência, as relações entre os dois países se deterioraram, especialmente em razão da compra de petróleo russo pela Índia e da imposição de tarifas comerciais severas por Washington.

Analistas apontam que a Índia vê com cautela qualquer movimento que aproxime o BRICS de uma aliança militar formal, algo que foge do mandato original do bloco, historicamente voltado à cooperação econômica e ao comércio.

O Brasil, por sua vez, manteve presença apenas como observador. Embora não tenha se oposto publicamente às manobras, a decisão de não enviar meios navais indica uma postura mais prudente diante da crescente militarização simbólica do grupo.

Tensão com os Estados Unidos

Os exercícios acontecem em meio a um ambiente de forte tensão entre o BRICS e os Estados Unidos. O governo Trump acusa alguns membros do bloco de adotarem políticas consideradas antiamericanas e já ameaçou impor tarifas adicionais a países integrantes da aliança.

Washington também vê com desconfiança a aproximação militar entre China, Rússia e Irã, especialmente após recentes episódios no Atlântico Norte e declarações do governo norte-americano sobre o uso de força em diferentes regiões do mundo.

Para a África do Sul, a realização dos exercícios representa um risco diplomático adicional. O país já enfrenta relações desgastadas com os EUA, tanto por questões comerciais quanto pela decisão de levar ao Tribunal Internacional de Justiça (TPI) um processo contra Israel por suposto genocídio em Gaza.

Divisões internas e limites do BRICS

Especialistas destacam que, apesar da retórica de cooperação, o BRICS enfrenta limites claros para se transformar em uma aliança militar consistente. Diferenças políticas, estratégicas e regionais entre os países, especialmente no formato BRICS Plus, dificultam a construção de uma agenda comum na área de defesa.

Ainda assim, os exercícios Vontade de Paz 2026 reforçam a percepção de que parte do bloco busca ampliar sua projeção geopolítica e desafiar a influência ocidental, mesmo que isso acentue fissuras internas e gere reações negativas de potências como os Estados Unidos.

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