Como a aproximação com China e Rússia afastou a Geórgia dos EUA

Antiga aliada de Washington no Cáucaso, Geórgia é deixada fora da agenda americana em meio à aproximação com China e Rússia

Antiga parceira estratégica de Washington no Cáucaso do Sul, a Geórgia acompanha à distância a visita do vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, à região. O roteiro inclui Azerbaijão e Armênia, mas deixa de fora Tbilisi, sinalizando o esfriamento das relações entre os dois países e a mudança de prioridades da política externa americana no Cáucaso. As informações são da Radio Free Europe.

A viagem de Vance, marcada para esta segunda-feira (9), é a mais relevante presença americana na região desde a visita de Joe Biden como vice-presidente, em 2009. Enquanto Baku e Yerevan ganham protagonismo nas articulações diplomáticas de Washington, a Geórgia, que por anos foi considerada o principal aliado dos EUA no Cáucaso do Sul, vê seu papel regional encolher.

JD Vance e Trump em foto de abril de 2025 (Foto: WikiCommons)

O isolamento ficou ainda mais evidente com o lançamento do Conselho da Paz anunciado pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Azerbaijão e Armênia foram convidados a integrar a iniciativa, descrita por Trump como uma das mais importantes já criadas por sua administração. A Geórgia, no entanto, não recebeu convite.

Para analistas, a exclusão reflete uma mudança estrutural no posicionamento de Tbilisi. Nas últimas décadas, a importância georgiana esteve ligada ao conflito entre Armênia e Azerbaijão, funcionando como corredor estratégico para o trânsito de energia do Mar Cáspio e como principal rota de acesso da Armênia ao exterior. Com o avanço de um processo de paz apoiado pelos Estados Unidos entre Baku e Yerevan, esse papel tende a perder relevância.

O distanciamento de Washington também se aprofundou após a chegada ao poder do partido Sonho Georgiano, em 2012. Governos e instituições ocidentais passaram a demonstrar preocupação com retrocessos democráticos no país, especialmente após as eleições de 2024, que, segundo a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, foram marcadas por irregularidades como compra de votos, intimidação e violência.

Os protestos contra o resultado eleitoral foram reprimidos pelas forças de segurança, levando os Estados Unidos a imporem sanções à Geórgia em dezembro de 2024. Desde então, as relações bilaterais se deterioraram ainda mais, com trocas de acusações e críticas públicas entre autoridades georgianas e representantes americanos.

O impasse se agravou após a posse do novo governo Trump. A então embaixadora dos EUA em Tbilisi, Robin Dunnigan, afirmou que a liderança do Sonho Georgiano enviou uma carta privada à Casa Branca com tom considerado ameaçador e ofensivo, o que teria sido extremamente mal recebido em Washington. Segundo ela, mesmo tentativas posteriores de restabelecer o diálogo esbarraram na recusa do líder político Bidzina Ivanishvili em receber uma resposta formal enquanto permanecesse sob sanções americanas.

Paralelamente, a Geórgia tem intensificado sua aproximação com a China e mantido relações com a Rússia, movimento que contrasta com a estratégia de Azerbaijão e Armênia, atualmente empenhados em fortalecer laços com os Estados Unidos. Para especialistas, a elevação da China ao status de parceira estratégica e a participação de empresas chinesas em projetos de infraestrutura considerados sensíveis, como o porto de águas profundas de Anaklia, minaram o apoio histórico da Geórgia no Congresso americano.

Analistas apontam que essa guinada para o leste oferece retornos limitados. Apesar de acordos e isenção de vistos, a China tende a enxergar a Geórgia como parte da esfera de influência russa, enquanto Moscou segue concentrada na guerra da Ucrânia e não demonstra disposição em atender às expectativas georgianas, como a restauração da integridade territorial do país.

Nesse cenário, a ausência da Geórgia na agenda de JD Vance simboliza mais do que uma decisão logística. Representa a perda de espaço de um país que, por duas décadas, foi visto como o principal interlocutor dos Estados Unidos no Cáucaso do Sul e que agora observa, do lado de fora, a reorganização do tabuleiro geopolítico regional.

Azerbaijão x Armênia

As disputas entre o Azerbaijão e a Armênia centram-se principalmente em torno do conflito de Nagorno-Karabakh, uma região historicamente predominantemente armênia, mas que faz parte do Azerbaijão.

O apoio de Israel foi crucial para o sucesso da ofensiva militar do Azerbaijão em Nagorno-Karabakh em setembro, permitindo a Baku expulsar os armênios étnicos e retomar o controle do enclave após mais de 30 anos.

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