Estado Islâmico ainda é ameaça? Coalizão internacional se reúne para discutir riscos

Encontro na Arábia Saudita reúne representantes de 90 países para discutir segurança na Síria e no Iraque e estratégias para impedir o ressurgimento do EI

A reunião de diretores políticos da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos contra o grupo terrorista Estado Islâmico (EI) teve início nesta segunda-feira (9), na capital da Arábia Saudita, Riad. O encontro reúne representantes dos 90 Estados-membros da coalizão, incluindo a Síria, que passou a integrar formalmente o grupo em novembro do ano passado. As informações são da Anadolu.

Presidida pelo vice-ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, Waleed Al-Khuraiji, a reunião ocorre ao longo de um dia e tem como foco principal a avaliação da situação de segurança relacionada às atividades remanescentes do Estado Islâmico na Síria e no Iraque. A informação foi divulgada pela emissora estatal saudita Al-Ekhbariya.

Combatentes do Estado Islâmico no Sinai, no Egito, no ano de 2023 (Foto: WikiCommons)

Também participam do encontro o ministro das Relações Exteriores da Síria, Asaad Al-Shaibani, e o enviado dos Estados Unidos para a Síria, Tom Barrack. Segundo a publicação, os debates devem abordar as ameaças ainda representadas pelo grupo terrorista, especialmente por meio de células adormecidas, além de estratégias para impedir um possível ressurgimento da organização.

Outro ponto central da reunião é o fortalecimento da coordenação em segurança e das ações militares conjuntas entre os países membros da coalizão. Ao final do encontro, é esperada a divulgação de uma declaração oficial com os encaminhamentos e consensos alcançados.

Na noite de domingo (8), Asaad Al-Shaibani chegou a Riade acompanhado do chefe da inteligência síria, Hussein al-Salama, para participar das discussões. Desde a queda do regime de Bashar al-Assad, no fim de 2024, o novo governo sírio tem intensificado esforços para reforçar a segurança em todo o território nacional.

Criada em 2014, a coalizão internacional anti-EI realizou diversas operações militares contra o grupo na Síria e no Iraque ao longo da última década, mesmo antes da adesão formal de Damasco.

Por que isso importa?

O EI passou por um processo de enfraquecimento que começou com a derrota da organização em seus dois principais redutos. No Iraque, o exército iraquiano retomou todos os territórios que o grupo dominava desde 2014. Já as FDS (Forças Democráticas Sírias), uma milícia curda apoiada pelos EUA, anunciaram em 2019 o fim do “califado” criado pela facão extremista na Síria.

Desde fevereiro de 2022, o EI sofreu diversos duros golpes, com três líderes da organização mortos em operações de combate ao terrorismo. O mais recente deles foi Abu al-Hussein al-Husseini al-Qurashi, morto em abril. O governo turco reivindicou a ação, embora a própria organização terrorista alegue que o comandante morreu em confronto com o Hayat Tahrir Al-Sham (HTS), uma organização extremista associada à Al-Qaeda e listada pelo governo norte-americano como terrorista.

Ultimamente, porém, os EUA relatam um ressurgimento do grupo extremista que se concentra na Síria, onde novos seguidores são treinados para atuar como homens-bomba. Diante de tal cenário, dobraram em 2024 os ataques contra as forças aliadas de combate ao terrorismo, que ocorrem também no Iraque.

Mas o continente onde a facção mantém presença mais relevante é a África, através de afiliados locais. Um deles é o Estado Islâmico no Grande Saara (EIGS), que ampliou sua área de atuação, com aumento de ataques no Mali, em Burkina Faso e no Níger. Ainda tenta alcançar a Nigéria para fins logísticos e de recrutamento, possivelmente em colaboração com o ISWAP” (Estado Islâmico da África Ocidental).

“Apesar do progresso feito no direcionamento de suas operações financeiras e quadros de liderança, a ameaça representada pelo Daesh (sigla árabe para se referir ao grupo) e suas afiliadas regionais permaneceu alta e dinâmica nas amplas áreas geográficas onde está presente”, diz relatório divulgado em agosto de 2023 pela ONU (Organização das Nações Unidas).

Terrorismo no Brasil

Episódios recentes mostram que o Brasil é visto como porto seguro pelos extremistas e é, também, um possível alvo de ataques. Em dezembro de 2013, levantamento do site The Brazil Business indicava a presença de ao menos sete organizações terroristas no Brasil: Al-Qaeda, Jihad Media Battalion, HezbollahHamas, Jihad Islâmica, Al-Gama’a Al-Islamiyya e Grupo Combatente Islâmico Marroquino.

Em 2016, duas semanas antes do início dos Jogos Olímpicos no Rio, a PF prendeu um grupo jihadista islâmico que planejava atentados semelhantes aos dos Jogos de Munique em 1972. Dez suspeitos de serem aliados ao EI foram presos e dois fugiram.

Mais tarde, em dezembro de 2021, três cidadãos estrangeiros que vivem no Brasil foram adicionados à lista de sanções do Tesouro Norte-americano. Eles foram acusados de contribuir para o financiamento da Al-Qaeda, tendo inclusive mantido contato com figuras importantes do grupo terrorista.

A ameaça voltou a ser evidenciada com a prisão, em outubro de 2023, de três indivíduos supostamente ligados ao Hezbollah que operavam no Brasil. Eles atuavam com a divulgação de propaganda do grupo extremista e planejavam atentados contra entidades judaicas.

Para o tenente-coronel do exército brasileiro André Soares, ex-agente da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), tais episódios causam “preocupação enorme”, vez que confirmam a presença do país no mapa das organizações terroristas islâmicas.

“A possibilidade de atentados terroristas em solo brasileiro, perpetrados não apenas por grupos extremistas islâmicos, mas também pelo terrorismo internacional, é real”, diz Soares, mestre em operações militares e autor do livro “Ex-Agente Abre a Caixa-Preta da Abin” (editora Escrituras).

A opinião é compartilhada por Barbara Krysttal, gestora de políticas públicas e analista de inteligência antiterrorismo.

“O Brasil recorrentemente, nos últimos dez, cinco anos, tem tido um aumento significativo de grupos terroristas assediando jovens e cooptando adultos jovens para fazer parte de ações terroristas no mundo todo”, disse ela, que também vê o país sob ameaça de atentados. “Sim, é um polo que tem possibilidade de ser alvo de ações terroristas.”

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