Empresa alemã teria ajudado Rússia a burlar sanções e enviar tecnologia militar via Turquia

Investigação na Alemanha aponta esquema milionário de exportação ilegal de componentes de dupla utilização para a indústria militar russa, com uso de empresas de fachada e rotas pela Turquia

Uma investigação conduzida pelas autoridades alemãs revelou um suposto esquema internacional de evasão de sanções que teria permitido o envio de tecnologia europeia à indústria militar da Rússia, mesmo após o endurecimento das restrições impostas pelo Ocidente desde a invasão da Ucrânia em 2022. As informações são do Politico.

O caso envolve a empresa Global Trade, sediada na cidade de Lübeck, no norte da Alemanha, e o empresário russo identificado como Nikita S., de 39 anos, preso em maio de 2026 sob suspeita de coordenar uma rede de exportação ilegal de componentes considerados sensíveis para uso militar.

Imagem gerada por IA

Segundo documentos obtidos pelo jornal alemão BILD e pelo POLITICO, a estrutura teria movimentado cerca de 16 mil remessas, avaliadas em mais de 30 milhões de euros. Os produtos incluíam microcontroladores, sensores, componentes eletrônicos, rolamentos e equipamentos de medição, itens classificados como “de dupla utilização”, ou seja, com aplicações civis, mas que também podem ser utilizados em sistemas militares.

As investigações apontam que, após as sanções europeias dificultarem exportações diretas para a Rússia, a rede passou a utilizar empresas de fachada e rotas alternativas, principalmente pela Turquia, para ocultar o destino final das mercadorias.

Promotores alemães afirmam que a empresa russa Kolovrat, também conhecida como Siderius e já sancionada pelos Estados Unidos, controlava parte da operação a partir de Moscou. Segundo os autos, funcionários ligados à companhia acessavam contas de e-mail da Global Trade e se passavam por representantes alemães para negociar diretamente com fornecedores europeus.

Mensagens obtidas pelos investigadores indicam preocupação constante em esconder qualquer ligação com a Rússia. Em uma delas, um dos envolvidos orienta: “Nenhuma referência à Rússia em lugar algum.” Outra mensagem sugeria retirar documentos das caixas antes do envio.

A inteligência alemã, por meio do serviço secreto BND, teria conseguido acesso a documentos internos da rede, incluindo faturas, pedidos e registros de transporte. As autoridades então cruzaram dados alfandegários europeus e russos para rastrear o caminho das mercadorias.

Em alguns casos, segundo os investigadores, os equipamentos chegaram a entidades ligadas ao setor nuclear russo, incluindo o VNIIA, instituto associado ao programa de armas nucleares da Rússia.

Além de Nikita S., outros suspeitos permanecem sob custódia enquanto os promotores reúnem provas para possíveis acusações formais por violação de controles de exportação, evasão de sanções internacionais e participação em organização criminosa.

O caso reacende debates sobre as dificuldades enfrentadas por países ocidentais para impedir que componentes tecnológicos cheguem à Rússia por meio de países intermediários. Autoridades alemãs afirmam que o combate à evasão de sanções se tornou prioridade desde o início da guerra na Ucrânia.

Segundo a alfândega alemã, empresas e órgãos internacionais têm intensificado a troca de informações para identificar redes que utilizam terceiros países para mascarar exportações destinadas ao território russo.

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