O acesso à internet no Irã está deixando de ser tratado como um direito básico para se tornar um privilégio controlado pelo Estado. Em meio a uma das mais longas interrupções nacionais de internet do mundo, o governo iraniano ampliou as restrições digitais e passou a discutir modelos de acesso seletivo, conhecidos como “Internet Pro”, que liberam determinados serviços apenas para grupos autorizados. As informações são do Iran International.
A medida, apresentada oficialmente como temporária e ligada às condições de guerra, cria diferentes níveis de acesso digital conforme profissão, identidade e autorização governamental. Na prática, médicos, empresários e outros grupos podem receber permissões específicas para utilizar plataformas estrangeiras como YouTube ou Instagram, enquanto o restante da população permanece sob forte censura online.
A política aprofunda o controle estatal sobre a conectividade no país e reforça a visão de setores do governo iraniano de que a internet representa uma ameaça à segurança nacional e à estabilidade política.

Bloqueios prolongados
O mais recente bloqueio da internet no Irã começou em 28 de fevereiro e segue afetando milhões de usuários. Embora autoridades neguem um “apagão total”, serviços estrangeiros continuam parcialmente inacessíveis, e o uso de VPNs tornou-se praticamente obrigatório para quem deseja acessar plataformas internacionais.
O impacto vai além das redes sociais. Serviços bancários, educação, transporte, saúde e atividades profissionais passaram a sofrer limitações severas. Até empresas globais sentiram os efeitos da crise digital iraniana.
A Meta, dona do WhatsApp, Facebook e Instagram, informou queda no número médio de usuários diários de seus aplicativos durante o primeiro trimestre do ano, citando as restrições de internet no Irã como um dos fatores para a redução.
Mercado de VPNs cresce com censura
Com a ampliação da censura digital, o mercado paralelo de VPNs disparou no Irã. Usuários passaram a pagar valores cada vez maiores para acessar conteúdos bloqueados e manter contato com o exterior.
As soluções variam entre aplicativos comerciais, servidores privados e até conexões que supostamente utilizam tecnologias associadas ao Starlink. Ferramentas gratuitas desenvolvidas por programadores independentes também surgiram como alternativas para driblar os bloqueios impostos pelo governo.
Especialistas e críticos do regime afirmam que o modelo favorece uma “internet baseada em classes”, em que apenas determinados grupos conseguem acesso pleno à rede mundial.
Sistema “Internet Pro” gera críticas
O sistema “Internet Pro” vem sendo criticado por organizações de direitos digitais e jornalistas independentes. Para opositores, o modelo institucionaliza a desigualdade no acesso à informação e cria um mecanismo de controle social baseado em permissões estatais.
O jornalista investigativo Yashar Soltani afirmou que a iniciativa pode beneficiar financeiramente empresas de telecomunicações ligadas a instituições influentes do país, além de fortalecer o controle político sobre a circulação de informações.
Enquanto isso, milhões de iranianos seguem enfrentando dificuldades para trabalhar, estudar, acessar serviços básicos e manter comunicação com o mundo exterior.