A perigosa dupla jornada dos policiais argentinos entre viaturas e aplicativos de transporte

Baixos salários e recessão levam agentes a buscar renda extra em plataformas como Uber e DiDi. ONGs alertam para o uso de armas institucionais durante o trabalho informal

Policiais que trabalham como motoristas de aplicativo fora do expediente estão no centro de um aumento de mortes e confrontos armados na Argentina. O fenômeno ocorre em meio à recessão, à perda do poder de compra e à busca por renda extra entre agentes das forças de segurança. As informações são do The Guardian.

Dados do Centro de Estudos Jurídicos e Sociais (Cels) mostram que 75% das mortes causadas por policiais que usaram armas de serviço em 2025 ocorreram quando os agentes estavam fora do horário de trabalho. Parte desses casos envolveu policiais que atuavam como motoristas de aplicativos.

Segundo o levantamento, cerca de 13% dos policiais envolvidos nesses episódios trabalhavam em plataformas de transporte no momento dos incidentes. Foram 16 casos em 2025, contra apenas dois em 2020.

Viatura em Buenos Aires (Foto: WikiCommons)
Atrás de renda extra

A crise econômica argentina ampliou a pressão sobre os salários das forças de segurança. Muitos policiais afirmam que a remuneração, mesmo com plantões extras, não é suficiente para cobrir as despesas de uma família.

Com isso, motoristas de Uber, DiDi e outros aplicativos passaram a incluir policiais em busca de uma segunda fonte de renda. Alguns agentes fazem corridas depois de turnos de 12 horas ou nos dias de folga.

“Você pode ganhar cerca de 44 mil pesos em um turno extra de oito horas na polícia ou fazer corridas que rendem 42 mil pesos em quatro horas. É matemática pura”, afirmou um policial federal à reportagem.

O agente, identificado apenas como Diego, disse que é comum passageiros descobrirem que o motorista do aplicativo também trabalha na polícia.

Armas de serviço elevam riscos fora do expediente

O principal alerta de organizações de direitos humanos está relacionado ao porte de armas institucionais fora do serviço. Muitos policiais levam armas fornecidas pelo Estado durante o trabalho em aplicativos, mesmo quando atuam como civis.

Uber e DiDi proíbem que motoristas portem armas de fogo. Ainda assim, agentes entrevistados afirmam que carregam armamento por segurança, principalmente em áreas consideradas mais perigosas.

Para Victoria Darraidou, coordenadora de políticas de segurança e violência policial do Cels, a prática aumenta os riscos para policiais, passageiros e suspeitos de crimes.

“Os policiais matam e morrem mais quando estão fora de serviço. Isso acontece porque usam suas armas sem planejamento, sem apoio e de forma desproporcional”, afirmou.

Casos

Em fevereiro, um policial de 30 anos que trabalhava como motorista de aplicativo atirou contra dois homens que tentaram assaltá-lo em La Matanza, na região metropolitana de Buenos Aires.

Em outro caso, também em fevereiro, um policial da província de Buenos Aires morreu após ser baleado por um passageiro que tentou assaltá-lo armado durante uma corrida. O agressor também morreu após ser atingido por um disparo.

Em dezembro de 2025, um policial federal que dirigia para aplicativos matou um adolescente de 15 anos durante uma abordagem. O agente alegou que foi cercado por um grupo de homens e que um deles estaria armado.

Os episódios reforçaram o debate sobre o porte de armas por policiais fora de serviço e sobre as condições de trabalho das forças de segurança na Argentina.

Milei apoia forças de segurança

O governo do presidente Javier Milei mantém um discurso de forte apoio às forças de segurança. Ao mesmo tempo, aumentaram as queixas de policiais sobre salários baixos, endividamento e condições de trabalho.

Muitos agentes dizem que a renda líquida, mesmo com horas extras, fica abaixo da linha da pobreza para uma família de quatro pessoas. O valor é estimado pelo governo argentino em cerca de US$ 1.000 mensais (cerca de R$ 5,2 mil).

A combinação entre baixos salários, jornadas extensas e trabalho informal cria uma situação de risco. Policiais passam mais tempo expostos a possíveis assaltos, mas sem o suporte operacional que teriam durante o serviço oficial.

Debate sobre armas fora do serviço

Entidades de direitos humanos defendem mudanças nas regras sobre o porte de armas de serviço. A advogada María del Carmen Verdú, fundadora da Correpi, afirma que limitar o acesso às armas fora do expediente poderia reduzir mortes e disparos acidentais.

O debate ganhou força após decisões e declarações de integrantes do governo argentino em defesa de policiais envolvidos em confrontos fora do horário de serviço.

Segundo o Cels, as mortes causadas por policiais aumentaram 40% nos últimos dois anos. Para as organizações, o cenário exige uma revisão das políticas de segurança, além de respostas para a precarização salarial enfrentada por agentes na Argentina.

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