Emirados anunciam US$ 168 bilhões em investimentos na África e ampliam disputa por portos e minerais

Projetos anunciados desde 2017 envolvem portos em Moçambique e Congo, além de mineração, agricultura e energia em diferentes países africanos

Os investimentos dos Emirados Árabes Unidos na África já ultrapassam US$ 168 bilhões em projetos anunciados desde 2017, segundo levantamento do Financial Times repercutido pelo Business Insider. O dinheiro está sendo direcionado para portos, mineração, agricultura e energia verde em diferentes países do continente, com destaque para a expansão da infraestrutura logística em Moçambique e na República Democrática do Congo.

A estratégia coloca os Emirados em uma disputa direta com China, União Europeia, Estados Unidos e outras monarquias do Golfo pelo controle de ativos estratégicos e pelo acesso aos recursos minerais africanos.

O número, porém, precisa ser interpretado com cautela: os US$ 168 bilhões correspondem a projetos anunciados, e não ao volume efetivamente investido. Algumas iniciativas sofreram atrasos ou não avançaram.

Porto de Maputo, em Moçambique (Foto: WikiCommons)
Portos africanos

A logística é um dos principais instrumentos da estratégia dos Emirados. A DP World, gigante portuária sediada em Dubai, opera ou desenvolve portos, terminais intermodais e zonas francas em 13 países africanos, segundo o Financial Times. A companhia está ampliando o porto de Maputo, em Moçambique, uma infraestrutura estratégica para o comércio do sul da África.

A empresa também está envolvida no desenvolvimento do primeiro porto de águas profundas da República Democrática do Congo. O projeto amplia o alcance dos Emirados para uma região rica em recursos minerais e com grande potencial de expansão comercial.

A Abu Dhabi Ports também participa da expansão da presença dos Emirados nas rotas comerciais africanas.

A lógica é conectar os locais de produção aos mercados internacionais. Na prática, isso significa controlar ou participar de pontos fundamentais da cadeia que começa em uma mina ou fazenda e termina em um consumidor no exterior.

Porto de Maputo: estratégico

Em Moçambique, o porto de Maputo é particularmente importante porque funciona como uma porta de entrada e saída para o comércio regional.

Sua localização permite atender não apenas ao mercado moçambicano, mas também a áreas do interior da África Austral. Melhorias na infraestrutura podem reduzir o tempo e o custo para transportar mercadorias entre centros produtores e os mercados internacionais.

Para os Emirados, a importância do projeto não está apenas nas instalações portuárias. O controle ou a participação em corredores logísticos cria uma posição estratégica sobre os fluxos comerciais.

Para Moçambique e seus vizinhos, a questão é se essa infraestrutura será utilizada para desenvolver cadeias produtivas locais ou principalmente para acelerar a exportação de matérias-primas.

Congo: reserva mineral

A República Democrática do Congo ocupa uma posição diferente nessa estratégia. O país possui algumas das maiores reservas minerais do mundo, incluindo cobre e cobalto, fundamentais para setores como eletrônicos, baterias e tecnologias de transição energética.

A construção de infraestrutura portuária adequada pode facilitar o escoamento desses recursos, mas também levanta uma questão central: quanto do valor econômico permanecerá no território congolês?

Um porto ligado a minas pode simplesmente tornar a exportação de minério mais rápida e barata. Se estiver integrado a ferrovias, áreas industriais, empresas locais e instalações de processamento, poderá contribuir para uma cadeia econômica mais ampla. Essa diferença é decisiva para os governos africanos.

Minerais críticos

A disputa também ocorre fora dos grandes projetos portuários. A África concentra reservas de minerais considerados estratégicos para a economia mundial, e países como a Namíbia estão no centro da competição entre grandes investidores.

China e União Europeia disputam acesso a recursos namibianos como urânio, lítio e terras raras. A competição demonstra por que os governos africanos passaram a dar maior importância não apenas ao valor dos investimentos, mas também às condições dos contratos.

Em vez de simplesmente conceder o direito de exploração, os países podem exigir processamento local, treinamento profissional, contratação de empresas nacionais, fornecimento de energia e construção de infraestrutura.

Disputa global

A expansão dos Emirados acontece em um momento de crescente competição internacional pela África. A China possui uma presença consolidada em infraestrutura, mineração e comércio. A União Europeia e os Estados Unidos tentam ampliar o acesso a minerais críticos e fortalecer relações econômicas com países africanos.

Os países do Golfo também aumentaram sua presença. A Arábia Saudita, por exemplo, demonstrou interesse em uma concessão de 25 anos para um terminal no porto da Cidade do Cabo, na África do Sul. A iniciativa mostra que a disputa por infraestrutura africana não está restrita aos Emirados.

Para os governos africanos, essa concorrência pode representar uma vantagem. Quanto maior o número de interessados em um porto, uma mina ou um corredor logístico, maior a possibilidade de comparar propostas e exigir contrapartidas.

O poder local

A grande questão é o que os países africanos conseguirão manter depois que os investimentos estrangeiros forem realizados.

Um projeto de mineração pode gerar royalties e empregos, mas deixar o processamento e a fabricação de produtos de maior valor agregado em outro país.

Um porto pode movimentar milhões de toneladas de mercadorias sem necessariamente criar uma indústria nacional ao seu redor.

Por isso, governos africanos podem negociar condições que incluam processamento de minerais dentro do país, formação de trabalhadores, participação de empresas locais e acesso compartilhado a portos, ferrovias e redes de energia.

A infraestrutura passa, assim, a ter uma função que vai além da exportação.

O que ficará?

Os US$ 168 bilhões anunciados pelos Emirados representam uma oportunidade para países africanos que enfrentam dificuldades para financiar grandes obras de infraestrutura.

Mas o tamanho do investimento não garante, por si só, desenvolvimento econômico. O resultado dependerá de como cada país negociar seus contratos, concessões portuárias, direitos de mineração e acordos de fornecimento.

Moçambique pode ganhar uma infraestrutura portuária mais eficiente em Maputo. A República Democrática do Congo pode ampliar seu acesso marítimo e sua capacidade de exportação. Países ricos em minerais, como a Namíbia, podem tentar atrair processamento e indústria para dentro de suas fronteiras.

O ponto central é quem ficará com o valor criado. Se os investimentos apenas conectarem minas e fazendas africanas aos mercados estrangeiros, os Emirados terão construído uma poderosa rede de exportação.

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