Mercenários do Wagner Group que permanecem na República Centro-Africana (RCA) construíram um lucrativo esquema de tráfico de tramadol, um opioide sintético amplamente consumido no país africano. A informação foi revelada em reportagem publicada pelo The Wall Street Journal, que aponta o controle da distribuição da droga como uma das principais fontes de financiamento das atividades do grupo na região.
Segundo o jornal, o tramadol é produzido na Índia, enviado à República Democrática do Congo e transportado pelo rio Ubangi até a República Centro-Africana. A partir daí, a distribuição seria controlada por integrantes do Wagner.
Embora seja utilizado legalmente para o tratamento da dor, comprimidos com dosagens muito superiores às recomendadas para uso médico são vendidos livremente em mercados e estabelecimentos comerciais do país. O medicamento é consumido por trabalhadores de minas de ouro para suportar longas jornadas e também por combatentes, que buscam reduzir o medo e aumentar a agressividade.

A expansão do consumo da substância coincidiu com a intensificação dos conflitos armados em áreas ricas em recursos minerais. Dados da Universidade de Uppsala citados pelo WSJ indicam que as mortes em combate cresceram quase 20% no último ano, alcançando cerca de 500 vítimas. A reportagem destaca que o comércio do tramadol ajudou o Wagner Group a manter suas operações após uma série de reveses enfrentados nos últimos anos.
Estimativas da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC) apontam que as exportações ilícitas do minério rendem aproximadamente US$ 180 milhões por ano. Segundo o jornal, até 500 mercenários ainda permanecem na República Centro-Africana, onde continuariam atuando mesmo após a dissolução formal do Wagner, anunciada depois da rebelião liderada por Evgeny Prigozhin e de sua morte, em 2023.
Na RCA, além de oferecer segurança ao presidente Faustin-Archange Touadera, o grupo explora recursos valiosos como ouro, diamantes e madeira, atuando de forma paralela ao Estado e acima da lei.