O rápido crescimento da dívida de empresas e famílias russas desde o início da guerra na Ucrânia está alimentando preocupações sobre a saúde do sistema financeiro do país. Após anos de expansão do crédito impulsionada por programas estatais e subsídios, especialistas alertam que a combinação de juros elevados, desaceleração econômica e aumento das falências pode criar um cenário de forte pressão sobre os bancos. As informações são do The Moscow Times.
Desde 2022, Moscou ampliou programas de crédito voltados para diversos setores da economia, incluindo agricultura, pequenas empresas e indústrias ligadas à substituição de importações. Paralelamente, o governo incentivou a contratação de financiamentos imobiliários subsidiados, impulsionando o mercado habitacional e elevando o volume total de empréstimos concedidos no país.
O resultado foi uma forte expansão do endividamento. Dados divulgados por instituições russas mostram que a dívida corporativa cresceu cerca de 93% desde 2021, enquanto o endividamento das famílias avançou 57% no mesmo período.

Falências batem recordes
O aumento da carga financeira ocorre em um momento de juros elevados e crescimento econômico mais lento. Esse cenário tem dificultado o pagamento de dívidas por parte de empresas e consumidores.
Em 2025, mais de 636 mil russos declararam falência, o maior número já registrado no país. O volume representa crescimento de 30% em relação ao ano anterior e mais que o triplo do registrado em 2021. A tendência continuou em 2026, com nova alta nos pedidos de insolvência.
Entre as empresas, os números também avançaram. Milhares de companhias entraram em processos de falência ou solicitaram proteção contra credores nos primeiros meses do ano. Pequenos negócios aparecem entre os mais afetados, especialmente microempresas que enfrentam dificuldades para honrar financiamentos contratados durante o período de expansão econômica impulsionado pelos gastos de guerra.
Setor bancário tenta evitar deterioração
Apesar do aumento das dificuldades financeiras, o Banco Central da Rússia sustenta que os bancos permanecem sólidos e possuem reservas suficientes para absorver eventuais perdas. A estratégia adotada pelas autoridades tem sido incentivar a renegociação de empréstimos, permitindo que empresas e consumidores ganhem mais tempo para regularizar suas obrigações.
Críticos, porém, afirmam que essa política pode estar mascarando o real tamanho do problema. Relatórios citados por analistas europeus sugerem que parte significativa dos empréstimos considerados saudáveis apresenta sinais de deterioração, mas continua fora das estatísticas oficiais de inadimplência devido às reestruturações.
Algumas estimativas apontam que até 10% dos empréstimos corporativos podem ser classificados como ativos de qualidade duvidosa, percentual considerado elevado para padrões internacionais.
Gastos da guerra ampliam riscos
Especialistas observam que o modelo econômico adotado pela Rússia desde o início da invasão da Ucrânia depende fortemente de gastos públicos, crédito subsidiado e receitas obtidas com exportações de energia. Enquanto esse fluxo de recursos for mantido, o governo poderá continuar oferecendo suporte ao sistema financeiro.
No entanto, uma eventual queda nas receitas de petróleo e gás ou o endurecimento das sanções ocidentais poderiam ampliar significativamente os riscos. Nesse cenário, Moscou poderia ser obrigada a utilizar recursos do orçamento federal ou do Fundo Nacional de Riqueza para socorrer instituições financeiras pressionadas pelo aumento da inadimplência.