A Polônia foi um dos principais refúgios para quem fugiu da guerra na Ucrânia. Mais de quatro anos após o início da invasão russa em larga escala, porém, muitos ucranianos afirmam que o sentimento de acolhimento deu lugar ao medo. As informações são da Radio Free Europe.
Casos recentes de violência e insultos contra refugiados e imigrantes ucranianos, aliados ao crescimento do nacionalismo e à deterioração da opinião pública sobre o tema, alimentam a sensação de insegurança entre aqueles que buscaram proteção no país vizinho.
Um dos episódios de maior repercussão ocorreu em 26 de julho, na cidade de Wrocław. Anastasia Kitsay e seu namorado, Maksym, foram agredidos por três homens após uma discussão em uma loja de conveniência.

Segundo Karyna Kitsay, mãe de Anastasia, a confusão começou quando um homem tentou furar a fila do caixa. Ao ser advertido, ele respondeu com insultos xenófobos, perguntando se ela “achava que estava na Ucrânia” e chamando-a de “trapo ucraniano”.
Pouco depois, o homem retornou acompanhado de outros dois agressores. Maksym foi espancado com socos e chutes ao lado do carro do casal, enquanto Anastasia também foi atingida durante a agressão. Ambos precisaram ser hospitalizados.
O ataque foi registrado em vídeo e amplamente compartilhado nas redes sociais da Polônia e da Ucrânia. Dois suspeitos responderam em audiência judicial por agressão com motivação étnica, embora tenham negado as acusações. O prefeito de Wrocław condenou o episódio e afirmou que a cidade não tolerará violência motivada por ódio, xenofobia ou preconceito nacional.
Crimes de ódio aumentam
A Polônia acolheu um dos maiores contingentes de refugiados ucranianos desde o início da guerra. Dados das Nações Unidas indicam que quase um milhão de ucranianos ainda possuíam status de refugiados no país em abril deste ano. Além deles, cerca de um milhão de ucranianos vivem na Polônia como trabalhadores migrantes.
Apesar da forte integração econômica entre os dois países, relatos de discriminação tornaram-se mais frequentes.
Segundo o jornal polonês Rzeczpospolita, os crimes de ódio contra ucranianos aumentaram cerca de 30% nos últimos seis meses.
Outro caso aconteceu em 27 de junho, na cidade de Płock. Natalya Melnyk contou que seu filho de 15 anos voltava para casa de ônibus acompanhado de um amigo quando ambos passaram a conversar em ucraniano. Um passageiro reagiu dizendo que “a Polônia é para os poloneses” e exigiu que eles falassem apenas polonês.
Quando os adolescentes responderam que desceriam no ponto seguinte, o homem passou a gritar que eles deveriam “descer do ônibus” e “sair do país”. Em seguida, partiu para a agressão física. Segundo Melnyk, o agressor literalmente empurrou os dois jovens para fora do coletivo.
Inicialmente, a polícia investigou o episódio sem classificá-lo como crime de ódio. A tipificação só mudou após insistência da família. Até o fim de julho, o suspeito ainda não havia sido identificado.
Apoio diminui
Os relatos de violência coincidem com mudanças importantes na percepção da sociedade polonesa.
Pesquisa divulgada neste mês pelo Centro de Pesquisa de Opinião Pública mostrou que 52% dos poloneses são contrários ao recebimento de novos refugiados ucranianos, enquanto 42% permanecem favoráveis.
O contraste é expressivo quando comparado aos primeiros meses da guerra. Em 2022, 94% dos entrevistados apoiavam o acolhimento dos refugiados.
Outro levantamento revelou que a maioria da população também defende restringir benefícios sociais, incluindo o acesso gratuito ao sistema público de saúde para cidadãos ucranianos.
Especialistas atribuem essa mudança ao aumento do custo de vida, ao desgaste provocado pela longa duração da guerra e à percepção de que o apoio estatal aos refugiados deveria ser reduzido.
Feridas históricas
Além das dificuldades econômicas, antigas disputas históricas voltaram a influenciar as relações entre Varsóvia e Kyiv.
Em maio, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, concedeu uma homenagem militar ligada ao Exército Insurgente Ucraniano (UPA), organização considerada por muitos ucranianos símbolo da luta pela independência.
Na Polônia, porém, o grupo é responsabilizado pelo Massacre da Volínia, no qual cerca de 100 mil poloneses foram mortos durante a Segunda Guerra Mundial.
O episódio provocou forte reação política. O presidente polonês, Karol Nawrocki, anunciou que retiraria de Zelensky a mais alta condecoração concedida pelo Estado polonês. Em resposta, o líder ucraniano devolveu a honraria.
Para o cientista político Mateusz Kamionka, especialista em relações entre Polônia e Ucrânia, o debate sobre a memória histórica voltou ao centro da política polonesa e passou a influenciar também a percepção sobre os refugiados.
O jornalista polonês Alexei Cheplyansky afirma que o discurso de ódio já ultrapassou o ambiente virtual.
“Falar ucraniano ou russo na rua está se tornando um problema. Muitos poloneses sequer conseguem distinguir um idioma do outro. Recentemente, até um atleta belarusso foi atacado por pessoas que gritavam: ‘Volte para a Ucrânia'”, afirmou.
Segundo ele, partidos de direita têm explorado esse sentimento para ampliar seu apoio político.
“O discurso de ódio está começando a sair da internet e chegar às ruas”, concluiu.