As tarifas para atravessar o Canal do Panamá atingiram níveis históricos em agosto, pressionadas pela queda dos níveis de água associada ao fortalecimento do El Niño e pelo aumento da demanda provocado pela guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Os leilões por vagas de trânsito nas principais eclusas chegaram a uma média de US$ 1,1 milhão, mais de 16 vezes o valor registrado no mesmo período de 2025. As informações são do Financial Times.
Os valores começaram a disparar após os ataques aéreos contra o Irã, liderados pelos Estados Unidos e por Israel, em 28 de fevereiro, que levaram ao fechamento do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas mundiais para o transporte de petróleo.
Com a interrupção da passagem, compradores asiáticos aumentaram as compras de petróleo bruto e derivados na costa do Golfo do México, nos Estados Unidos. O movimento elevou a demanda por navios que utilizam o Canal do Panamá para alcançar os mercados asiáticos.

Nas maiores eclusas, destinadas a embarcações de maior porte, o valor médio dos leilões chegou a US$ 2,5 milhões nas últimas semanas. Segundo dados compilados pela Argus, é o maior valor já registrado.
Algumas disputas individuais alcançaram US$ 3,78 milhões por uma vaga nas eclusas Neopanamax e US$ 2,63 milhões nas eclusas Panamax desde 28 de julho.
Água em queda
A pressão sobre o Canal do Panamá não vem apenas da demanda. O fortalecimento do El Niño está contribuindo para a redução dos níveis de água. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico, pode provocar períodos de seca mais intensa em diferentes regiões.
Ross Griffith, chefe de precificação de fretes para as Américas da Argus, afirmou que os níveis de água estão caindo de forma contínua, algo considerado incomum entre maio e dezembro.
O lago Gatún, reservatório artificial que fornece água ao sistema do Canal do Panamá, está abaixo da média histórica registrada entre 1965 e 2022. A previsão é de nova queda nos próximos meses.
Embora a situação ainda seja melhor do que a registrada em 2023, quando o Panamá enfrentou uma seca excepcional, a projeção atual preocupa porque a redução dos níveis ocorre antes do início da estação seca, prevista para dezembro.
“Potencialmente, podemos ter uma situação pior do que a de 2023”, afirmou Griffith.
Navios com menos carga
A queda dos níveis de água também afeta diretamente a capacidade dos navios. Para atravessar o canal com segurança, as embarcações precisam respeitar limites de calado. Quando esse limite é reduzido, os navios precisam diminuir a quantidade de carga transportada.
Em julho, a Autoridade do Canal do Panamá anunciou novas restrições. Para as eclusas Panamax, o calado máximo permitido será reduzido para 47,5 pés até 3 de setembro, ante o limite habitual de 50 pés.
A medida aumenta os custos para as empresas de navegação e seus clientes e pode provocar filas de embarcações nas entradas da hidrovia, que possui aproximadamente 80 quilômetros de extensão.
Fila crescente
O número de navios aguardando passagem também aumentou. Em 3 de agosto, aproximadamente 113 embarcações esperavam para atravessar o Canal do Panamá, considerando tanto aquelas com reservas antecipadas quanto as que disputavam vagas nos leilões diários.
Em 2 de janeiro, eram cerca de 40 embarcações. Grandes operadores, como empresas responsáveis por porta-contêineres e navios de transporte de gás liquefeito de petróleo, costumam reservar suas vagas antecipadamente, pagando preços fixos inferiores aos valores dos leilões.
Mesmo assim, até 30% do tráfego total do canal pode depender das vagas negociadas diariamente.
Canal sob pressão
A Autoridade do Canal do Panamá afirmou ao Financial Times que alguns navios pagaram mais de US$ 1 milhão em leilões para atender necessidades específicas de seus mercados.
Segundo a autoridade, os valores refletem “flutuações temporárias do mercado”, e não uma nova tarifa oficial estabelecida pelo canal.
O órgão também afirmou que as restrições anunciadas não devem reduzir o número de trânsitos diários. Novas medidas, entretanto, poderão ser adotadas caso as condições de navegação se deteriorem.