Alemanha investiga homem de 105 anos por mortes em campo de concentração nazista

Ex-guarda do Stalag 326 VI K é investigado pelo Ministério Público de Dortmund por possível participação em múltiplos assassinatos de prisioneiros de guerra soviéticos

A Justiça alemã investiga um homem de 105 anos suspeito de ter atuado como guarda no campo de prisioneiros de guerra Stalag 326 VI K, administrado pelo regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial. O Ministério Público de Dortmund apura uma possível cumplicidade em múltiplos assassinatos cometidos no local, na região de Senne, no oeste da Alemanha. As informações são do The Guardian.

O Stalag 326 VI K funcionou entre 1941 e abril de 1945 e recebeu entre 180 mil e 200 mil prisioneiros de guerra soviéticos. O campo foi libertado por tropas americanas em abril de 1945.

A investigação foi encaminhada ao Ministério Público de Dortmund pelo Escritório Central para a Investigação de Crimes Nacional-Socialistas, localizado em Ludwigsburg, no estado de Baden-Württemberg. O procedimento começou com dois ex-guardas do campo, mas um deles morreu antes da conclusão da investigação.

Prisioneiros de guerra soviéticos em Sandbostel, Alemanha, 1941–1943 (Foto: WikiCommons)

O suspeito de 105 anos é investigado por sua atuação como guarda no campo. Segundo os promotores, ele é acusado de cumplicidade em múltiplos assassinatos em razão das atividades que desempenhava no local. Ainda não foram divulgados detalhes sobre sua identidade ou sobre as evidências reunidas contra ele.

O caso integra uma série de investigações conduzidas pela Justiça alemã contra pessoas suspeitas de participação em crimes cometidos durante o regime nazista. Os processos continuam possíveis porque os crimes de assassinato e cumplicidade em assassinato não prescrevem na Alemanha.

Um precedente importante surgiu no processo contra John Demjanjuk, ex-guarda do campo de extermínio de Sobibór, na Polônia ocupada. Ele foi condenado em 2011 por cumplicidade nos assassinatos de mais de 28 mil judeus. A decisão contribuiu para estabelecer uma interpretação segundo a qual a atuação como guarda em um campo nazista poderia fundamentar uma acusação de cumplicidade em assassinatos, mesmo sem prova de que o acusado tivesse cometido diretamente algum homicídio.

Outros processos recentes envolveram antigos funcionários e guardas de campos nazistas. Irmgard Furchner, que trabalhou como secretária do comandante do campo de Stutthof entre 1943 e 1945, recebeu uma pena de dois anos de prisão, suspensa, por cumplicidade em assassinatos. Josef Schütz, ex-guarda de Sachsenhausen, foi condenado em 2022 a cinco anos de prisão por cumplicidade em assassinatos e morreu no ano seguinte, aos 102 anos.

O Stalag 326 VI K recebeu principalmente soldados soviéticos. Segundo o memorial do antigo campo, entre 5,3 milhões e 5,7 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos foram capturados e mantidos sob custódia alemã durante a Segunda Guerra Mundial, dos quais entre 2,3 milhões e 3 milhões não sobreviveram. As condições incluíam desnutrição, atendimento médico insuficiente, condições sanitárias precárias e trabalho forçado.

O andamento da investigação contra o homem de 105 anos ainda depende das conclusões do Ministério Público de Dortmund. O caso é um dos poucos procedimentos ainda conduzidos na Alemanha contra suspeitos de crimes cometidos durante o período nazista, mais de oito décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial.

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