Uma mãe afegã e suas quatro filhas morreram de sede durante uma tentativa de chegar ao Irã, em uma das rotas clandestinas utilizadas por migrantes que deixam o Afeganistão em busca de trabalho e melhores condições de vida. As meninas tinham entre seis e 15 anos. As informações são da Radio Free Europe (RFE/RL).
Os corpos foram encontrados na aldeia de Mak Sukhteh, na província iraniana de Sistão-Baluchistão, próxima à fronteira com o Paquistão. Nizam Hematkhil, filho da mulher e irmão das meninas, viajou até o local depois de receber a notícia e afirmou à reportagem que recuperou os corpos.
“A causa das mortes foi a sede”, relatou Hematkhil. Segundo a organização iraniana de direitos humanos Haalvsh, sediada no exterior, a família estava entre 17 afegãos que morreram de desidratação extrema em meados de setembro após atravessarem o Paquistão e tentarem entrar no Irã.

A fonte diplomática do Taleban consultada confirmou que uma mãe e suas quatro filhas morreram em 11 de setembro durante a travessia, mas contestou a informação de que 17 afegãos tenham morrido no episódio. A Haalvsh divulgou vídeos que aparentemente mostram moradores cavando sepulturas e realizando um funeral.
Retorno ao Irã
A família de Hematkhil já havia vivido no Irã, mas retornou ao Afeganistão no ano passado. Segundo ele, a falta de trabalho e de recursos tornou inviável a permanência no país.
“Em vez de encontrarmos uma maneira de recomeçar, esgotamos todas as nossas economias e recursos”, afirmou. A família é originária da província de Baghlan, no norte do Afeganistão.
O caso ocorre em meio a um movimento mais amplo de deslocamento e retorno de afegãos entre o país e seus vizinhos. Em setembro, A Referência mostrou que cerca de seis milhões de pessoas haviam retornado ao Afeganistão nos três anos anteriores, em grande parte devido ao aumento das deportações promovidas pelo Irã e pelo Paquistão.
O retorno, porém, acontece em um país que continua enfrentando uma grave crise humanitária. Segundo o ACNUR, mais da metade da população afegã necessita de algum tipo de assistência, enquanto milhões de refugiados permanecem nos países vizinhos.
Rotas clandestinas
O Irã é um dos principais destinos dos afegãos que deixam o país em busca de trabalho. Muitos migrantes sem documentação recorrem a traficantes para atravessar a fronteira, passando por áreas desérticas e montanhosas onde o acesso a água e alimentos é limitado.
O ACNUR estima que cerca de 4,5 milhões de afegãos vivam no Irã, incluindo mais de 2 milhões de migrantes sem documentação, segundo a RFE/RL.
A fronteira entre os dois países tem cerca de 921 quilômetros e atravessa algumas das áreas mais áridas da região. A RFE/RL relata que a repressão iraniana à imigração irregular também aumentou os riscos para quem tenta entrar no país por vias clandestinas.
Em julho, os corpos de 14 migrantes afegãos foram encontrados em uma área desértica no sudeste do Afeganistão, perto da fronteira com o Irã. O grupo teria tentado entrar ilegalmente no país vizinho.
Crise afegã
A retomada do poder pelo Taleban, em 2021, aprofundou uma crise econômica e humanitária que já era grave. A redução da ajuda internacional, a falta de empregos e as restrições impostas pelo regime continuam estimulando movimentos migratórios.
A Referência já mostrou como o retorno de milhões de afegãos ocorre paralelamente ao agravamento das necessidades humanitárias e às restrições impostas pelo Taleban às mulheres e meninas.
O cenário também se relaciona à situação de segurança do país. Em setembro, A Referência mostrou que a presença de organizações como Al-Qaeda e Estado Islâmico-Khorasan mantém o Afeganistão no radar do terrorismo internacional, cinco anos depois da retomada do poder pelo Taleban.
As mortes na fronteira com o Irã expõem uma das consequências da crise: famílias que já haviam deixado o Afeganistão e retornado ao país voltam a tentar a migração diante da falta de alternativas econômicas.
“Eles pensam no futuro, acreditando que, se chegarem ao Irã, poderão pelo menos encontrar trabalho e obter renda para proporcionar uma vida melhor para suas famílias”, disse Sefatullah Zahedi, ativista dos direitos dos migrantes radicado na Alemanha.