A primeira visita de Vladimir Putin às Ilhas Curilas provocou um novo atrito diplomático entre Rússia e Japão. O presidente russo esteve nesta quinta-feira (13) em Iturup, uma das quatro ilhas do sul do arquipélago reivindicadas pelo governo japonês. As informações são da NPR.
Durante a passagem pela ilha, Putin visitou uma fábrica de processamento de pescado, um hospital e uma escola. O presidente também conversou com moradores e se reuniu com Valery Limarenko, governador da região russa de Sacalina.
A visita ocorre em um território cuja soberania é disputada há décadas. A Rússia controla as Ilhas Curilas do Sul, enquanto o Japão reivindica as quatro ilhas mais meridionais e as chama de Territórios do Norte.

Japão incomodado
O governo japonês reagiu rapidamente à viagem. O ministro das Relações Exteriores, Toshimitsu Motegi, convocou o embaixador russo em Tóquio, Nikolay Nozdrev, e apresentou um protesto formal.
Segundo Motegi, os Territórios do Norte, incluindo Iturup, são “território inerente do Japão”, tanto do ponto de vista histórico quanto segundo a interpretação japonesa do direito internacional.
A primeira-ministra Sanae Takaichi também classificou a visita de Putin como “absolutamente inaceitável”. Para ela, a presença do presidente russo na região torna ainda mais difícil uma eventual melhora nas relações entre os dois países.
“Esta visita endureceu ainda mais o sentimento público japonês em relação à Rússia e tornou mais difícil a restauração das relações bilaterais a médio e longo prazo”, afirmou Takaichi.
Rússia faz pouco caso
Moscou rejeitou a manifestação diplomática do Japão. A Embaixada da Rússia em Tóquio classificou o protesto como “infundado” e reiterou que as Ilhas Curilas do Sul fazem parte da Federação Russa.
A posição russa é baseada na interpretação de que a soberania sobre as ilhas foi estabelecida após a Segunda Guerra Mundial. A União Soviética tomou o arquipélago do Japão nos últimos dias do conflito.
A disputa territorial permanece como um dos principais obstáculos para a assinatura de um tratado de paz definitivo entre Rússia e Japão, que nunca formalizaram o encerramento das hostilidades da Segunda Guerra Mundial por meio de um acordo de paz.
Disputa atravessa décadas
A disputa pelas Ilhas Curilas se estende por décadas e envolve quatro ilhas principais no extremo sul do arquipélago: Iturup, Kunashir, Shikotan e Habomai.
O Japão denomina a região de Territórios do Norte e sustenta que as ilhas pertencem historicamente ao país. A Rússia, por sua vez, considera o território parte integrante de sua Federação e mantém presença militar na região.
Ao longo dos anos, diferentes governos tentaram encontrar uma solução diplomática para a questão, sem alcançar um acordo definitivo. Em 2021, o governo japonês também protestou quando o então primeiro-ministro russo Mikhail Mishustin visitou Iturup.
Putin fala em paz
Antes de viajar para Iturup, Putin esteve na ilha de Sacalina, onde acompanhou a etapa final de exercícios da Frota do Pacífico russa.
A bordo de um navio de guerra, o presidente afirmou que o atual status das Ilhas Curilas está respaldado por documentos internacionais relacionados ao fim da Segunda Guerra Mundial.
Apesar disso, Putin disse que a Rússia continua aberta à possibilidade de negociar um tratado de paz com o Japão.
O presidente russo também citou o ex-primeiro-ministro japonês Shinzo Abe, morto em 2022, como um dos líderes que buscaram melhorar as relações entre Moscou e Tóquio.
A relação entre os dois países, entretanto, se deteriorou significativamente depois da invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022. O Japão aderiu às sanções contra Moscou e passou a considerar a Rússia uma das principais fontes de ameaça à sua segurança.
Medvedev reage a Takaichi
O ex-presidente russo Dmitry Medvedev também reagiu às críticas da primeira-ministra japonesa.
Em uma publicação na rede social X, Medvedev afirmou que as declarações de Takaichi não alterariam a posição russa sobre as ilhas.
“As Ilhas Curilas eram, são e continuarão sendo território russo”, escreveu.
Entenda o litígio
No fim da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética tomou as Ilhas Curilas do Japão, que continua a reivindicar direitos territoriais. A questão das quatro ilhas vulcânicas do sul do arquipélago, chamadas de Territórios do Norte pelos japoneses, impediu que os dois países assinassem um tratado de paz e dificulta sua reaproximação econômica nos últimos anos.
Tóquio não reconhece a soberania russa sobre quatro ilhas vulcânicas do arquipélago das Curilas. Décadas de esforços diplomáticos para negociar um acordo não conseguiram solucionar o impasse.