Taleban completa 5 anos no poder: o que mudou no Afeganistão desde a volta do grupo

Grupo celebra aniversário com desfile em Cabul, enquanto organizações humanitárias alertam para o aumento das necessidades da população e entidades de direitos humanos denunciam restrições às mulheres

O Taleban completou cinco anos no poder do Afeganistão neste sábado (15), com uma série de cerimônias para celebrar o retorno do grupo ao comando do país. Em Cabul, veículos blindados participaram de um desfile em frente à antiga embaixada dos Estados Unidos, em uma demonstração de força que o governo classificou como uma celebração da “vitória” sobre a dominação ocidental. As informações são da Reuters.

A comemoração ocorre, porém, em meio a uma grave situação humanitária. O International Rescue Committee afirmou que as necessidades de assistência no Afeganistão atingiram um nível recorde, impulsionadas por secas, terremotos e pela deportação de afegãos de países vizinhos, especialmente Irã e Paquistão.

Segundo a organização, embora os recursos destinados à ajuda internacional tenham diminuído, o número de afegãos que precisam de assistência humanitária aumentou em 3,5 milhões desde 2021.

Membro do Taleban em Cabul (Foto: WikiCommons)
Misoginia em alta

Desde o colapso do governo afegão, a repressão contra mulheres e meninas tem sido marca do Taleban. Elas não podem estudar, trabalhar ou sair de casa desacompanhadas de um homem. A perda do salário por parte de muitas mulheres que sustentavam suas casas tem contribuído para o empobrecimento da população afegã. E foram relatados casos de solteiras ou viúvas forçadas a se casar com combatentes.

De acordo com a Unesco, cerca de 2,5 milhões de meninas e mulheres foram impedidas de frequentar escolas secundárias e universidades. As autoridades talibãs também restringiram a liberdade de circulação feminina e o acesso a diferentes atividades profissionais.

Dados divulgados pela ONU Mulheres indicam que metade das mulheres afegãs sai de casa apenas uma ou duas vezes por mês.

O Taleban afirma que respeita os direitos das mulheres de acordo com a sharia, a lei islâmica. As medidas adotadas pelo grupo, contudo, continuam sendo alvo de críticas de organizações internacionais de direitos humanos.

Governo busca reconhecimento internacional

Cinco anos depois da retomada de Cabul, o governo do Talibã continua sem amplo reconhecimento internacional. A Rússia é, até o momento, o único país que reconheceu formalmente o governo do grupo.

Apesar disso, o Taleban vem ampliando contatos diplomáticos e econômicos com diferentes países. O governo de Cabul tenta aproveitar a posição estratégica do Afeganistão, localizado entre o Sul e a Ásia Central e próximo ao Oriente Médio, para estabelecer acordos comerciais e fortalecer relações externas.

As relações com o Paquistão, que inicialmente era um dos principais parceiros do Taleban, também se deterioraram. Islamabad acusa o governo afegão de apoiar grupos insurgentes paquistaneses, o que aumentou as tensões entre os dois países.

Segundo Zia Ahmad Takal, vice-porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Taleban, cerimônias para marcar os cinco anos do governo deveriam ocorrer também no Paquistão, China, Uzbequistão, Irã, Turquia e Malásia.

Assassinatos aumentam preocupação

A celebração do aniversário também acontece após uma sequência de ataques contra autoridades regionais no nordeste do Afeganistão.

No fim de julho, o diretor de Informação do Taleban na província de Badakhshan foi assassinado em um ataque posteriormente reivindicado pelo Estado Islâmico (EI). Na quinta-feira, o prefeito da capital da província também morreu em um ataque, segundo a imprensa local.

Os episódios evidenciam os desafios de segurança enfrentados pelo governo talibã, que busca projetar uma imagem de controle sobre o território cinco anos após a retirada das forças americanas e de seus aliados.

“Paz e prosperidade exigem mais”

Para Georgette Gagnon, representante sênior da ONU para o Afeganistão, o futuro do país depende da construção de uma sociedade que garanta direitos e oportunidades para toda a população.

“Paz e prosperidade sustentáveis exigem mais do que simplesmente a ausência de conflitos”, afirmou.

Enquanto o Taleban celebra cinco anos no poder, milhões de afegãos continuam dependendo de ajuda humanitária. Ao mesmo tempo, as restrições impostas às mulheres permanecem como um dos principais obstáculos à normalização das relações do governo com a comunidade internacional.

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