Oriente Médio

Taleban restringe trabalho feminino e contribui para a crise humanitária afegã

Das 34 províncias do país, apenas três deram carta verde para as profissionais do serviço humanitário exercerem suas funções plenamente

A repressão de gênero imposta pelo Taleban atinge também as mulheres que realizam trabalho humanitário no Afeganistão, impactando na vida de famílias que precisam de ajuda para sobreviver em meio à crise econômica e à escassez de alimentos. Sobretudo aquelas chefiadas por integrantes do sexo feminino, segundo informações da ONG Human Rights Watch (HRW).

Um mapeamento dos acordos firmados entre organizações humanitárias e os talibãs, feito pelo Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), apontou em quais lugares as voluntárias têm permissão para trabalhar. Das 34 províncias do país, apenas três deram carta verde para a atuação plena das mulheres, revelou o documento.

Na maior parte do Afeganistão, as trabalhadoras do auxílio humanitário são obrigadas a conviver com o cerco fechado dos jihadistas durante o expediente. Entre as exigências, elas precisam ter a presença de um membro da família do sexo masculino enquanto cumprem com suas atividades, o que compromete a eficácia do trabalho.

Mulheres afegãs fazem fila para recolher alimentos distribuídos pelo Programa Alimentar Mundial da ONU (Foto: United Nations Photo/Flickr)

“As severas restrições do Taleban às trabalhadoras humanitárias estão impedindo que a ajuda desesperadamente necessária chegue aos afegãos, especialmente mulheres, meninas e famílias chefiadas por mulheres”, disse Heather Barr, diretora associada de direitos das mulheres da Human Rights Watch.

Ela acrescentou: “Permitir que as mulheres trabalhadoras humanitárias façam seu trabalho sem restrições não é uma questão de agências ou doadores imporem condições à assistência humanitária, mas uma necessidade operacional para prestar essa assistência”.

Mulheres oprimidas

Desde que assumiu o Afeganistão em 15 de agosto, o Taleban desmantelou os sistemas estabelecidos no país para prevenir e responder à violência de gênero. A nova realidade tem sido devastadora para as mulheres, que voltaram a viver sob um regime repressivo baseado numa interpretação radical do Islã.

Entre as imposições dos talibãs às mulheres estão a proibição de saírem de casa desacompanhadas, o veto à educação em escolas e ao trabalho e inúmeros casos de solteiras ou viúvas forçadas a se casar com combatentes.

Desde 2001, o conflito já resultou em cerca de 100 mil mortes, com muitos combatentes deixando viúvas e filhos. Sem os maridos, as mulheres lutam pela sobrevivência desde antes da atual crise econômica e do domínio Taleban, que restringe o acesso das mulheres ao trabalho remunerado.

Segundo o levantamento do OCHA, “aquelas que sofrem de algum tipo de deficiência, sejam casadas ou solteiras, enfrentam discriminação e são tratadas como um fardo para suas famílias, além de correr maior risco de violência dentro e fora de casa”.

O papel das trabalhadoras humanitárias no Afeganistão é justamente alcançar e avaliar as necessidades de mulheres, meninas e de famílias que as têm como provedoras, “especialmente porque a sociedade costuma ser profundamente segregada por gênero”, relatou a ONG. A falta de mulheres no front humanitário “também significa que as mulheres com deficiência têm menos acesso aos serviços de reabilitação”.