Relatos de ataques de ursos-pardos contra pessoas têm sido registrados quase diariamente em diferentes regiões da Rússia desde o fim do verão de 2026. Nas últimas três semanas, ao menos quatro casos fatais foram relatados pela imprensa russa, incluindo ocorrências na República de Altai, no Krai de Krasnoyarsk e na República da Buriátia. As informações são do site investigativo Meduza.
Em 19 de agosto, uma turista de 29 anos foi atacada enquanto dormia em uma barraca perto da vila de Artybash, no distrito de Turochaksky, na República de Altai. O urso a arrastou para a floresta e a matou. Em 31 de agosto, duas mulheres desapareceram enquanto colhiam cogumelos perto do povoado de Podtesovo, no Krai de Krasnoyarsk. Os corpos foram encontrados em 2 de setembro com sinais de ataque de urso.
Em 6 de setembro, um homem de 40 anos morreu após ser atacado por um urso enquanto caminhava por uma área de floresta no povoado de Yuzhno-Yeniseysky, no Krai de Krasnoyarsk. No dia seguinte, outro homem foi atacado no distrito de Zakamensky, na Buriátia, enquanto conduzia gado com a esposa. A mulher conseguiu fugir e pedir ajuda, mas o homem sofreu ferimentos graves e morreu.

Segundo o Ministério de Recursos Naturais da Rússia, o país tem atualmente 307,9 mil ursos-pardos. As maiores populações estão nos krais de Krasnoyarsk e Khabarovsk, em Kamchatka e na região de Irkutsk. O ministério estima que a população tenha aumentado 2,3 vezes desde 1990.
Abates
As autoridades atribuem a presença crescente dos animais nas proximidades de áreas povoadas a fatores como atividade sazonal, redução das fontes naturais de alimento, acesso a restos de comida e aumento da população de ursos. A dimensão de cada um desses fatores ainda não está estabelecida cientificamente.
Uma colheita menor de frutas silvestres, cogumelos e pinhões na taiga teria levado os animais a procurar alimento em outras áreas, segundo o Kommersant Sibir. Autoridades da região de Kemerovo também relacionaram o deslocamento dos ursos aos incêndios florestais registrados no Krai de Krasnoyarsk.
Em diferentes regiões, autoridades passaram a abater animais considerados uma ameaça às pessoas. O Ministério de Recursos Naturais e Ecologia da República de Altai informou que mais de 50 ursos foram mortos desde o ataque que matou a turista e que foram emitidas licenças para o abate de outros 157 animais.
No Krai de Krasnoyarsk, o Ministério de Recursos Naturais e Florestas informou que mais de 180 ursos considerados “potencialmente conflituosos” haviam sido mortos até o início de setembro. O chefe da Agência Estatal de Supervisão da Caça afirmou que 60 animais foram abatidos apenas nos arredores de Krasnoyarsk.
As autoridades também adotaram restrições em áreas onde foram registrados ataques ou avistamentos. No distrito de Turochaksky, na República de Altai, foi estabelecido toque de recolher e houve alteração nos horários escolares.
Desde 7 de setembro, a entrada no Parque Nacional Krasnoyarskiye Stolby está proibida após o anoitecer. Também foram adotadas restrições de acesso no Parque Nacional Tunkinsky, na Buriátia, e na Reserva da Biosfera de Altai. Moradores e turistas de Krasnoyarsk foram orientados a evitar áreas mais afastadas da ilha de Tatyshev, onde um urso foi avistado.
Mudança nas regras
Autoridades regionais defendem mudanças nas normas que regulamentam o controle da população de ursos.
O governador da região de Magadan, onde os animais aparecem em áreas povoadas todos os anos, pediu alterações na legislação. Em entrevista à RIA Novosti, na quarta-feira (9), afirmou que ursos que entram em áreas povoadas poderiam transmitir esse comportamento para a geração seguinte.
A Meduza informou que não está claro em que evidências se baseia essa afirmação e que não há descrição desse fenômeno na literatura científica.
Na sexta-feira (11), o Ministério de Recursos Naturais da Rússia informou que está reunindo propostas das regiões para alterar as leis relacionadas ao controle da população de ursos.
Na República de Tuva, o Ministério de Recursos Naturais prevê uma nova onda de ursos que não hibernem durante o inverno caso a situação atual permaneça e o período de 2026–2027 seja rigoroso, segundo o Kommersant Sibir.
Especialistas ouvidos pela imprensa estatal russa afirmam que o abate dos animais, isoladamente, não resolve o problema. Dmitry Taranenko, pesquisador do Instituto de Sistemática e Ecologia Animal da Academia Russa de Ciências, afirmou à TASS que o extermínio indiscriminado de ursos que aparecem nas proximidades de áreas povoadas não seria uma solução.
O governador de Kamchatka, Vladimir Solodov, afirmou que os animais estão se aproximando de pessoas em busca de alimento. Segundo a Meduza, estudos científicos indicam que a procura por comida responde por apenas uma parcela dos encontros entre ursos e seres humanos, enquanto a maioria ocorre de maneira ocasional e longe das cidades.
As autoridades de Kamchatka também estão atuando contra depósitos irregulares de lixo, que podem atrair ursos para áreas povoadas, e distribuindo orientações de segurança para turistas. Entre as recomendações está não deixar alimentos dentro das barracas ou próximos a fogueiras.