BRICS descobre que desafiar o Ocidente é mais fácil do que concordar entre si

Guerra no Oriente Médio coloca Irã e Emirados Árabes Unidos em lados opostos às vésperas da cúpula do bloco, que reúne 11 países em Nova Délhi

BRICS, grupo que reúne BrasilRússiaÍndiaChinaÁfrica do Sul e outras nações, chega à cúpula de Nova Délhi maior e mais influente, mas também diante de uma contradição difícil de esconder: os países do grupo conseguem defender uma ordem internacional menos dependente do Ocidente, mas têm dificuldade para concordar quando precisam tratar de conflitos que envolvem diretamente seus próprios interesses. As informações são da Reuters.

A 18ª cúpula do BRICS será realizada em 12 e 13 de setembro, na capital indiana. Atualmente, o grupo reúne 11 países: Brasil, China, Egito, Etiópia, Índia, Indonésia, Irã, Rússia, Arábia Saudita, África do Sul e Emirados Árabes Unidos. Segundo o Governo da Índia, os integrantes representam 49,5% da população mundial, 40% do PIB global e 26% do comércio internacional.

Imagem oficial dos líderes do BRICS (Foto: Ricardo Stuckert/Palácio do Planalto – Flickr)

O problema mais urgente está no Oriente Médio. A guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã colocou Teerã e Abu Dhabi em lados opostos dentro do próprio BRICS. Os Emirados Árabes Unidos foram atingidos por mísseis iranianos e suspenderam, em agosto, transações comerciais e financeiras com o Irã. Segundo a Reuters, o principal desafio dos negociadores é encontrar uma formulação sobre a crise que possa ser aceita simultaneamente pelos dois países.

A dificuldade não é apenas teórica. Em maio, os ministros das Relações Exteriores do BRICS terminaram uma reunião em Nova Délhi sem conseguir emitir uma declaração conjunta. As divergências sobre a guerra envolvendo o Irã e os Emirados impediram um consenso, e a Índia precisou divulgar apenas uma declaração da presidência.

Agora, a mesma questão chega à reunião dos chefes de Estado. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, reconheceu que as diferenças entre Irã e Emirados tiveram um impacto negativo sobre a elaboração da declaração conjunta, embora tenha afirmado esperar que os líderes encontrem uma linguagem aceitável para os dois lados.

A situação expõe uma característica central do BRICS: o grupo não é uma aliança militar nem um bloco ideológico com posições obrigatoriamente coordenadas. Sua expansão aumentou o peso econômico e político, mas também colocou na mesma estrutura países com interesses estratégicos divergentes. Uma análise publicada pelo Financial Times destaca justamente as divisões internas relacionadas à expansão, às disputas entre China e Índia e às diferentes visões sobre o papel que o BRICS deve exercer diante do Ocidente.

A própria guerra demonstra esse problema. Enquanto o Irã busca apoio contra Estados Unidos e Israel, os Emirados precisam lidar diretamente com os efeitos dos ataques iranianos e com a segurança de suas estruturas e rotas comerciais. A Arábia Saudita também mantém uma posição particular: embora apareça entre os 11 integrantes listados pelo governo indiano, sua adesão plena ao grupo continua sendo tratada de forma ambígua e o país participa de algumas atividades por meio de delegações.

Para a Índia, anfitriã e atual presidente do BRICS, o equilíbrio é ainda mais delicado. Nova Délhi mantém relações estratégicas com Rússia e Irã, ao mesmo tempo em que preserva uma parceria importante com os Estados Unidos e relações econômicas e diplomáticas com os países árabes do Golfo. Nesta sexta-feira (11), o primeiro-ministro Narendra Modi se reuniu com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, e defendeu diálogo, diplomacia, liberdade de navegação e segurança do comércio marítimo, relatou o Governo da Índia.

A guerra também tem impacto econômico direto sobre o bloco. O conflito praticamente interrompeu o tráfego pelo Estreito de Ormuz, uma das principais passagens do comércio mundial de petróleo, e levou o preço do barril a ultrapassar US$ 100. Para grandes importadores de energia como Índia e China, a segurança da rota é uma questão econômica tão importante quanto militar.

Enquanto tenta superar essas divergências, o BRICS também busca avançar em sua agenda de redução da dependência do sistema financeiro dominado pelo Ocidente. Ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do grupo defenderam nesta semana reformas no FMI e no Banco Mundial, além de maior integração dos sistemas de pagamentos entre os países. Também discutem mecanismos para tornar os pagamentos internacionais mais rápidos, baratos e independentes de estruturas financeiras tradicionais.

É aí que aparece a contradição que acompanha a expansão do BRICS. O grupo tem tamanho suficiente para pressionar por mudanças no sistema financeiro internacional, ampliar o comércio entre países emergentes e defender uma ordem mundial mais multipolar. Mas quanto maior fica, mais difícil se torna transformar interesses nacionais muito diferentes em uma política externa comum.

A cúpula de Nova Délhi será, portanto, um teste para essa nova fase do BRICS. Se os 11 países conseguirem aprovar uma declaração sobre o Oriente Médio, a Índia poderá apresentar o resultado como prova de que o grupo consegue administrar suas diferenças e atuar como plataforma do Sul Global. Se o consenso fracassar novamente, ficará exposta a outra face da expansão: o BRICS pode estar ficando grande demais para falar com uma só voz.

Tags: