Vacina para cães mata animais na Rússia e fabricante oferece dinheiro sob sigilo

Fabricante russa oferece entre 200 mil e 300 mil rublos, segundo tutores, em acordos que preveem renúncia a novas reivindicações e cláusula de confidencialidade

A fabricante russa Vetbiokhim ofereceu indenizações a donos de cães que morreram após serem vacinados com o Multikan-8, em acordos que preveem o pagamento de despesas comprovadas e uma compensação adicional por danos morais. Segundo relatos dos próprios tutores, os valores oferecidos ficam entre 200 mil e 300 mil rublos, o equivalente a cerca de R$ 12 mil a R$ 18 mil na conversão aproximada. As informações são do site investigativo Meduza.

As propostas ganharam repercussão porque os acordos também estabelecem que os tutores renunciem a novas reivindicações contra a empresa e mantenham em sigilo as circunstâncias da morte dos animais e o valor recebido. O documento prevê ainda restrições para que os casos sejam discutidos com a imprensa, nas redes sociais e em aplicativos de mensagens sem autorização da Vetbiokhim. A informação foi publicada pelo veículo russo Ostorozhno, Moskva, com base em mensagens compartilhadas em grupos privados de pessoas afetadas.

Cão motociclista na cidade de Sovetsk, Rússia (Foto: WikiCommons)

A empresa, porém, não reconhece no acordo uma relação direta entre a vacina e a morte dos cães. A formulação utilizada no documento é “morte do animal, possivelmente após a vacinação”. A autenticidade do documento divulgado pelos tutores não foi confirmada de forma independente. A Vetbiokhim confirmou ao jornal econômico russo RBC que os contratos de assistência financeira incluem uma cláusula de confidencialidade e afirmou que os acordos são elaborados individualmente, classificando esse tipo de cláusula como uma prática jurídica padrão.

O caso ganhou força na Rússia em meados de agosto, quando começaram a surgir relatos de mortes e graves problemas de saúde em cães vacinados com o Multikan-8. A maior parte das primeiras denúncias veio da região de Yaroslavl. Tutores reuniram informações em grupos próprios e passaram a registrar os casos em planilhas, mas ainda não existe uma contagem oficial capaz de determinar quantos animais foram afetados. No fim de agosto, os grupos contabilizavam 169 mortes, enquanto outras fontes russas mencionavam até 300 animais.

A Vetbiokhim retirou quatro lotes de vacinas do mercado enquanto as investigações prosseguem. A medida atingiu dois lotes da Multikan-8, de números 20 e 21, e dois da Multikan-6, números 11 e 12. A empresa também afirmou que a retirada ocorreu diante de uma suspeita de possível interferência deliberada de terceiros.

Alguns tutores relacionaram as mortes à possível contaminação da vacina pelo vírus da doença de Aujeszky, também conhecida como pseudorraiva. Eles afirmam que exames realizados em animais mortos teriam identificado o vírus e que amostras da vacina também teriam apresentado resultado positivo em análises não oficiais. A Vetbiokhim, por sua vez, afirma que seus próprios testes não encontraram evidências dessa contaminação.

Além das denúncias dos tutores, autoridades russas abriram verificações sobre o caso. Na região de Yaroslavl, órgãos locais de fiscalização veterinária e a Promotoria passaram a investigar as circunstâncias das mortes. A própria fabricante sustenta que a vacinação, por si só, não permite estabelecer uma relação de causa e efeito entre o produto e os óbitos.

A crise também ocorre em um mercado veterinário russo mais dependente de fabricantes nacionais. Desde a invasão da Ucrânia e a adoção de sanções ocidentais, medicamentos veterinários importados, incluindo vacinas, perderam espaço no país após a saída de empresas estrangeiras. Com isso, clínicas passaram a depender principalmente de produtos fabricados na própria Rússia.

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