A transição mundial para uma economia menos dependente do petróleo pode criar um problema geopolítico que vai muito além do mercado de energia. À medida que a demanda global pela commodity se aproxima de um ponto de inflexão, países altamente dependentes das receitas petrolíferas poderão enfrentar crises fiscais, enfraquecimento dos serviços públicos, aumento da migração e instabilidade política. As informações são do The Guardian.
O alerta está em um estudo publicado pela E3G, organização especializada em clima e geopolítica. O relatório “Playing the Oil Endgame” (“O jogo final do petróleo”) afirma que o principal risco da chamada era pós-petróleo não será necessariamente uma falta de combustível, mas a fragilidade dos países que dependem das receitas obtidas com sua exportação.
O petróleo e o gás respondem por mais de 40% das receitas governamentais em 17 países produtores. Em alguns casos, a dependência é ainda maior: no Iraque, na Líbia, no Sudão do Sul, no Kuwait e em Omã, os combustíveis fósseis representam entre 70% e 90% da arrecadação pública.

O problema é que esses países não controlam completamente o futuro de suas receitas. A E3G estima que o pico da demanda mundial por petróleo deverá ocorrer entre 2030 e 2035. A China, que foi a principal responsável pelo crescimento do consumo nas últimas décadas, também está se aproximando de um ponto de inflexão.
Para produtores com economias pouco diversificadas, uma redução persistente da demanda significa menos dinheiro para salários públicos, subsídios, importações, investimentos e pagamento da dívida. O impacto pode aparecer primeiro nas contas dos governos, antes mesmo de qualquer falta física de petróleo.
A Nigéria, Angola e Argélia estão entre os países considerados mais vulneráveis pela E3G. O relatório destaca que os três dependem fortemente das exportações de petróleo e possuem margens fiscais relativamente limitadas para absorver uma queda prolongada das receitas.
Migração e conflitos
A consequência pode ultrapassar as fronteiras desses países. Segundo a E3G, a redução das receitas pode provocar deterioração dos serviços públicos, aumento da pressão sobre governos, dificuldades para administrar dívidas e instabilidade social. Esses problemas podem produzir efeitos regionais, incluindo migração e conflitos.
A Argélia aparece como um caso particularmente sensível. O país está geograficamente próximo da Europa e mantém forte dependência do mercado europeu. Uma deterioração econômica provocada pela queda das receitas de petróleo e gás poderia transformar uma questão energética em um problema de segurança para a União Europeia.
A lógica também vale para a Nigéria. Como país mais populoso da África, uma redução da capacidade financeira do Estado poderia produzir efeitos que ultrapassassem suas fronteiras.
A própria E3G afirma que a fragilidade dos países produtores pode se transformar em um problema de segurança para os países consumidores. Em um cenário de queda da demanda, governos produtores podem tentar proteger suas receitas aumentando a produção, buscando novos compradores ou estabelecendo acordos geopolíticos mais transacionais.
China e Índia
A mudança também altera o equilíbrio de poder entre grandes consumidores. A China foi o principal motor do crescimento da demanda mundial por petróleo nas últimas décadas. Agora, porém, seu consumo está se aproximando de um ponto de inflexão, em parte devido à expansão dos veículos elétricos e à eletrificação da economia.
A Índia representa uma incógnita maior. O país pode se tornar o principal grande mercado responsável por sustentar o crescimento da demanda mundial, mas sua trajetória dependerá da velocidade de expansão da eletrificação, da eficiência energética e das fontes renováveis.
Essa mudança cria uma situação inédita. Os grandes consumidores passam a ter cada vez mais poder para determinar quais produtores continuarão tendo acesso ao mercado.
A E3G aponta China, Índia, União Europeia e Estados Unidos como os principais centros de poder nesse novo cenário. Cada um possui instrumentos diferentes: a China tem capacidade de investimento e forte presença no refino; a Índia pode representar o principal mercado futuro de crescimento; a União Europeia influencia por meio de regras, financiamento e padrões; e os Estados Unidos combinam produção de petróleo, consumo, sanções, sistema financeiro e garantias de segurança.
Petróleo como arma
A queda da demanda não significa que o petróleo perderá imediatamente sua importância estratégica. Ao contrário: em um mercado menor, os países produtores podem disputar com mais intensidade os compradores restantes. A E3G avalia que a competição por mercados, investimentos e infraestrutura pode tornar as relações internacionais mais transacionais.
Produtores do Golfo, por exemplo, estão investindo em refinarias e indústrias petroquímicas na Ásia para garantir demanda futura. A estratégia é transformar o petróleo em produtos de maior valor agregado e manter compradores vinculados por relações comerciais de longo prazo.
Ao mesmo tempo, produtores mais vulneráveis podem ter menos capacidade para realizar essa adaptação. É justamente aí que está o risco geopolítico. O mundo pode consumir menos petróleo e, ainda assim, enfrentar mais disputas envolvendo petróleo. A diferença é que o conflito deixaria de estar concentrado na escassez da commodity e passaria a envolver quem consegue sobreviver economicamente à redução de seu valor estratégico.
A E3G defende que governos, instituições financeiras internacionais e grandes países consumidores antecipem esse processo. O objetivo seria financiar a diversificação econômica dos produtores mais vulneráveis e reduzir os riscos de uma transição desorganizada.
O relatório foi elaborado ao longo de dois anos e inclui uma simulação com mais de 100 participantes de governos, instituições internacionais, universidades e organizações da sociedade civil. Os exercícios analisaram diferentes cenários entre 2028 e 2040, incluindo transições rápidas, desorganizadas e mais lentas.