Na Ucrânia, robôs de guerra entram na zona de morte para resgatar feridos

Veículos não tripulados estão sendo usados para retirar militares feridos de áreas onde ambulâncias e veículos blindados não conseguem chegar devido à presença de drones e minas

A guerra na Ucrânia está levando a evacuação médica para uma nova etapa. Veículos terrestres não tripulados passaram a ser empregados para retirar soldados feridos de trechos da linha de frente onde a circulação de veículos convencionais se tornou extremamente arriscada.

Entre os equipamentos utilizados estão os MAULs, veículos controlados remotamente e equipados com sistemas de comunicação e guerra eletrônica. Eles podem transportar soldados feridos dentro de cápsulas blindadas, permitindo que a retirada seja feita sem colocar uma equipe médica diretamente na área de combate.

A necessidade desse tipo de equipamento está relacionada à chamada “zona de morte” criada pela presença constante de drones sobre a linha de frente. Segundo reportagem publicada pelo The Atlantic, essa área pode alcançar até 32 quilômetros de largura em alguns setores. Dentro dela, veículos, soldados e equipes de evacuação ficam sujeitos a ataques de drones.

(Foto: Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia/Reprodução)

Os veículos terrestres não tripulados começaram a chegar ao campo de batalha ucraniano no fim de 2024, inicialmente para missões de abastecimento. A utilização para evacuação médica ganhou espaço depois que uma operação realizada no início de 2025 demonstrou que essas máquinas poderiam atravessar áreas controladas por minas e drones para retirar soldados isolados.

Em fevereiro de 2025, três militares da 154ª Brigada Mecanizada ficaram isolados atrás das linhas russas na região de Kupiansk. Feridos, eles permaneceram durante semanas sem que as tentativas convencionais de retirada conseguissem alcançá-los.

Uma empresa ucraniana de tecnologia de defesa adaptou um veículo terrestre para realizar a operação. O primeiro equipamento, chamado Ardal, atingiu uma mina durante a missão. Um segundo veículo seguiu uma rota diferente e conseguiu chegar aos soldados, que foram retirados da posição e levados para uma área segura.

A operação envolveu mais de 50 pessoas, entre médicos, engenheiros, operadores de drones, pilotos e especialistas em guerra eletrônica. O episódio mostrou que a evacuação de feridos passou a depender de uma combinação entre veículos terrestres autônomos ou remotamente controlados e drones aéreos responsáveis por vigilância e proteção.

A mudança também afeta a forma como as Forças Armadas ucranianas distribuem recursos. O sistema de “ePoints” atribui pontuações diferentes às missões realizadas pelas unidades. Uma operação de abastecimento rende entre dois e três pontos, enquanto uma evacuação médica pode render mais de 70, segundo a reportagem.

O atendimento médico também precisou ser deslocado para mais perto das trincheiras. Como a presença de médicos na linha de frente se tornou difícil, soldados recebem treinamento para realizar os primeiros procedimentos em casos de ferimentos graves enquanto aguardam a retirada.

O resultado é uma cadeia de evacuação que começa no campo de batalha e envolve soldados prestando os primeiros socorros, drones de vigilância acompanhando a movimentação, equipes de guerra eletrônica monitorando ameaças e veículos terrestres transportando os feridos até um ponto onde possam ser transferidos para veículos médicos.

Os MAULs, entretanto, também são alvo dos drones russos. De acordo com o relato publicado pelo The Atlantic, dois veículos são perdidos, em média, para cada cinco vidas salvas. Para as equipes médicas ucranianas, a perda do equipamento é considerada parte do custo da operação.

Um dos veículos utilizados pelo 1º Batalhão Médico chegou a sobreviver a dez missões antes de ser destruído. Segundo os operadores, ele havia contribuído para salvar 11 soldados.

A experiência mostra uma mudança no papel dos sistemas não tripulados na guerra da Ucrânia. Além de transportar munições, realizar reconhecimento e atacar posições inimigas, os drones terrestres passaram a executar uma tarefa essencialmente médica: retirar pessoas de áreas nas quais a presença humana durante a evacuação pode resultar em novos ataques.

A tecnologia não elimina a necessidade de equipes humanas. Pelo contrário, a operação depende de médicos, operadores, pilotos e especialistas que coordenam cada etapa da retirada à distância.

Em um dos casos relatados pelo The Atlantic, um soldado com hemorragia interna e sinais de sepse foi retirado por um MAUL depois que drones de vigilância acompanharam o deslocamento e equipes de guerra eletrônica monitoraram a presença de aeronaves russas.

Outro soldado, identificado como Pavlo, foi ferido por um drone russo enquanto tentava resgatar um companheiro. Estilhaços atingiram seu abdômen, perfuraram sua bexiga e fraturaram sua pélvis. Depois de ser levado até uma trincheira, ele acabou retirado por um veículo terrestre não tripulado.

“Um robô me carregou, mas foram pessoas que me salvaram”, relatou Pavlo.

A utilização de drones terrestres para evacuação médica se insere em uma transformação mais ampla da guerra na Ucrânia, na qual sistemas não tripulados passaram a ocupar funções que antes dependiam diretamente de soldados, motoristas e equipes médicas expostas ao fogo inimigo.

Tags: