Sudão: a guerra dos drones que está destruindo o que restava do Estado

Ataques atingem infraestrutura civil e aprofundam o colapso provocado pela guerra entre o Exército e as forças paramilitares

O uso de drones pelas Forças Armadas Sudanesas (SAF) e pelas Forças de Apoio Rápido (RSF) transformou o conflito iniciado em 2023 e ampliou os ataques para áreas distantes das principais frentes de combate. Em 2026, a utilização desses equipamentos passou a atingir com frequência cidades, hospitais, instalações de energia, depósitos de combustível e rotas de ajuda humanitária.

Segundo uma investigação da ONU divulgada em setembro, mais de mil pessoas foram mortas em ataques com drones entre janeiro e maio de 2026. A missão de investigação afirmou ainda que armas, tecnologia militar, combatentes e redes logísticas fornecidos por atores estrangeiros estão ampliando a capacidade dos dois lados de realizar ataques a grandes distâncias.

A ONU identificou possíveis violações do direito internacional humanitário, algumas das quais podem configurar crimes de guerra, segundo informações da Investing.

Uma aldeia nos arredores de El Fasher, na região de Darfur, no Sudão, permanece silenciosa após um ataque (Foto: Unocha/Giles Clarke)

Os ataques também atingiram estruturas essenciais para a população. De acordo com um levantamento do governo britânico baseado em dados da ONU, ACLED (Armed Conflict Location & Event Data, uma organização internacional que coleta, organiza e analisa dados sobre conflitos políticos e violência no mundo) e outras organizações, foram registrados pelo menos 1.003 ataques com drones entre abril de 2023 e janeiro de 2026. Kordofan, Darfur e Cartum estão entre as regiões mais atingidas. Em março, a ONU informou que mais de 500 civis haviam sido mortos por ataques de drones apenas entre janeiro e 15 de março, relatou o governo do Reino Unido.

A cidade de El Obeid, capital do estado de Kordofan do Norte, tornou-se um dos principais pontos de pressão. Em agosto, ataques com drones atingiram instalações de energia e combustível, provocando interrupções no abastecimento e afetando serviços médicos e de água. O Conselho de Segurança da ONU também registrou ataques contra outras cidades, incluindo Atbara, Omdurman e Cartum.

O uso de drones também ameaça a distribuição de ajuda humanitária. Em uma reportagem anterior, A Referência mostrou como ataques contra Porto Sudão atingiram o principal ponto de entrada de ajuda internacional no país. Na ocasião, ataques contra o aeroporto interromperam temporariamente voos humanitários da ONU.

A tecnologia alterou a própria dinâmica territorial da guerra. Com drones de maior alcance, SAF e RSF conseguem atacar posições, infraestrutura e centros urbanos muito além das linhas de frente. A escalada ocorre enquanto o país permanece dividido entre áreas controladas por forças rivais. A Referência já mostrou que as SAF recuperaram grande parte de Cartum, enquanto a RSF mantém posições importantes em Darfur e Kordofan se tornou uma das principais frentes do conflito.

A dimensão internacional também cresceu. A investigação da ONU apontou redes transnacionais envolvendo indivíduos e entidades nos Emirados Árabes Unidos, Chade, Líbia e Somália no fornecimento de armas, equipamentos, logística, treinamento e pessoal à RSF. Os Emirados Árabes Unidos rejeitaram as acusações, detalhou o Jerusalem Post.

A guerra, iniciada em abril de 2023 por uma disputa pelo poder entre as SAF, comandadas por Abdel Fattah al-Burhan, e a RSF, liderada por Mohamed Hamdan Dagalo, já deslocou mais de 14 milhões de pessoas e provocou uma das maiores crises humanitárias do mundo. A expansão da guerra de drones ocorre enquanto o sistema de ajuda enfrenta falta de recursos: segundo o Programa Mundial de Alimentos, quase 20 milhões de pessoas enfrentam fome e o orçamento destinado ao Sudão caiu de US$ 645 milhões no ano passado para cerca de US$ 206 milhões em 2026.

A dimensão externa do conflito também é tema de outra reportagem de A Referência sobre a atuação da União Africana no Sudão, que aborda as tentativas de impedir a fragmentação política do país e reduzir a influência estrangeira sobre as forças envolvidas na guerra.

Por que isso importa?

O Sudão vive um violento conflito civil que coloca frente a frente dois generais que comandam o país africano desde o golpe de Estado de 2021: Abdel Fattah al-Burhan, chefe das SAF, e Mohamed Hamdan “Hemedti” Daglo, à frente da milícia das RSF.

As tensões decorrem de divergências sobre a incorporação dos combatentes das RSF às Forças Armadas, o que levou a milícia a se insurgir. Hemedti tinha originalmente entre 70 mil e cem mil homens sob seu comando, de acordo com a rede Deutsche Welle (DW), enquanto al-Burhan liderava um efetivo de cerca de 200 mil no início do conflito.

A terrível situação gera uma grave escassez de suprimentos essenciais, já que as entregas de produtos comerciais e de ajuda humanitária foram fortemente restringidas pelos combates e pelos desafios de acesso ao território controlado pelas RSF.

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