Mais de US$ 54 bilhões em projetos de mineração na América Latina foram perdidos ou permanecem paralisados desde 2018 em razão de conflitos comunitários, problemas de licenciamento, insegurança e disputas regulatórias. O levantamento da Americas Market Intelligence (AMI) mostra como fatores externos à operação das minas podem determinar se reservas minerais serão efetivamente transformadas em empreendimentos produtivos. As informações são do portal Mining.com.
A AMI estima que aproximadamente US$ 38 bilhões correspondam a baixas contábeis, acordos judiciais, multas e outras perdas documentadas. Outros US$ 16 bilhões representam capital imobilizado em projetos atrasados ou paralisados.
Desse montante, cerca de US$ 7 bilhões correspondem a projetos de cobre no Peru, enquanto aproximadamente US$ 4 bilhões estão relacionados a três empreendimentos no México que enfrentam problemas de licenciamento, segundo Sebastián Pérez-Ferreiro, codiretor da área de mineração e gestão de riscos da AMI.

Juan Carlos Guajardo, diretor-executivo da consultoria chilena Plusmining Consulting, afirmou que o valor é compatível com a dimensão das interrupções observadas no setor, mas ressaltou que o cálculo da AMI não foi verificado de forma independente. Ele também destacou a necessidade de diferenciar perdas efetivamente registradas do capital que permanece imobilizado em projetos atrasados.
O valor estimado ocorre em um momento em que a América Latina ganhou importância na disputa internacional por minerais considerados estratégicos para a transição energética e para setores como tecnologia e defesa. A região também tem atraído investimentos estrangeiros justamente por sua concentração de recursos minerais. A Referência mostrou que minerais e commodities essenciais para tecnologias de energia limpa responderam por parcela significativa dos projetos de investimento estrangeiro anunciados na América Latina.
O cobre está entre os principais minerais envolvidos nessa disputa. Chile e Peru concentram grandes reservas do metal, enquanto a China ocupa posição central no processamento e no consumo mundial. Essa concentração aumenta a importância estratégica dos projetos latino-americanos em um mercado marcado pela busca por novas fontes de minerais críticos.
A movimentação faz parte de uma disputa mais ampla pela segurança das cadeias de fornecimento. A Referência também mostrou como países estão buscando reduzir sua dependência de fornecedores concentrados e ampliar o acesso direto a minerais críticos.
Especialistas em geopolítica e mineração ouvidos pela reportagem original, Eduardo Zamanillo e Marta Rivera, ressaltaram que os US$ 54 bilhões não devem ser interpretados como uma medida do potencial total de investimentos da América Latina.
Os países da região apresentam diferenças importantes em relação à maturidade da indústria mineral, infraestrutura, capacidade institucional, segurança e previsibilidade regulatória. Por isso, os riscos e os obstáculos encontrados pelas empresas variam de acordo com cada jurisdição.
O Observatório de Conflitos Mineiros da América Latina (OCMAL) registra 284 conflitos envolvendo 301 projetos de mineração na região, segundo a AMI.
Previsibilidade na execução
Juan Carlos Guajardo afirmou que o valor acumulado não significa necessariamente que os riscos tenham aumentado todos os anos. Segundo ele, o que mudou foi também o peso atribuído pelos investidores a esses fatores na avaliação econômica dos projetos e de seus cronogramas.
Juan Ignacio Guzmán, CEO da GEM Mining Consulting, considera que os atrasos podem representar um impacto maior do que os custos diretos de disputas jurídicas ou garantias. Isso ocorre porque o adiamento de um projeto posterga a geração de receita e pode reduzir seu valor econômico.
Um dos maiores impactos identificados pela AMI está relacionado às consequências ambientais, sociais e jurídicas do rompimento da barragem de rejeitos de Mariana, em Minas Gerais, em 2015.

BHP, Vale e Samarco chegaram a um acordo com autoridades brasileiras para reparar as consequências do desastre. A AMI avalia o acordo em US$ 31,7 bilhões.
No Peru, aproximadamente US$ 7 bilhões em projetos de cobre estão paralisados ou enfrentam dificuldades relacionadas à oposição social, à incerteza regulatória e à mineração ilegal. No México, os projetos El Arco, na Baja California, San Nicolás, em Zacatecas, e Cordero, em Chihuahua, representam aproximadamente US$ 4 bilhões em investimentos afetados por problemas de licenciamento.
A chamada “previsibilidade de execução” aparece, segundo os especialistas, como uma das principais limitações para a mineração latino-americana. O problema envolve principalmente a duração e a previsibilidade dos processos de licenciamento, mas também pode incluir segurança e mineração ilegal.
No Chile, processos de aprovação considerados longos e complexos dificultam a abertura e a expansão de minas. No Peru, relações com comunidades, disputas territoriais e mineração ilegal podem representar obstáculos tão relevantes quanto os procedimentos formais de licenciamento.
Um exemplo é a expansão de US$ 3,2 bilhões da mina de cobre Collahuasi, no Chile. Em maio, o Segundo Tribunal Ambiental anulou uma licença relacionada ao projeto por considerar que houve falhas no tratamento das observações apresentadas pelas comunidades. O empreendimento precisará passar por novas análises de questões ambientais e sociais.
Outro caso é o da mina Cobre Panamá, da canadense First Quantum Minerals. O empreendimento, avaliado em US$ 6,8 bilhões, foi fechado depois que a Suprema Corte do Panamá considerou inconstitucional, no fim de 2023, a lei que aprovava o contrato de concessão.
Segundo a AMI, a operação representava aproximadamente 5% do Produto Interno Bruto do Panamá, 75% das exportações minerais e cerca de 54 mil empregos diretos e indiretos.
Na Colômbia, a AngloGold Ashanti registrou uma baixa contábil de US$ 98 milhões relacionada ao projeto de cobre e ouro Quebradona, paralisado desde 2021. A empresa pretende realizar uma nova avaliação de impacto ambiental em 2027.
A segurança também interfere na operação de minas. Em 2024, a chinesa Zijin Mining afirmou ter perdido o controle de 60% dos túneis de sua mina de ouro em Buriticá, na Colômbia, para garimpeiros ilegais que, segundo a empresa, tinham apoio do Clã do Golfo.
Os especialistas ouvidos pela reportagem apontam que o enfraquecimento da mineração formal em áreas de baixa capacidade estatal pode abrir espaço para a expansão da extração ilegal. Nesses locais, a segurança deixa de ser apenas um fator operacional e passa a representar um obstáculo estrutural aos investimentos.
Mudanças nos investimentos
Os riscos não significam necessariamente uma retirada das mineradoras da América Latina. Segundo os especialistas, as empresas estão se tornando mais seletivas sobre onde e quando investir, enquanto os governos disputam capital para desenvolver cadeias de fornecimento de minerais estratégicos.
Guajardo afirmou que as empresas tendem a priorizar expansões próximas a operações existentes, onde já contam com infraestrutura e relações estabelecidas com as comunidades. Grandes projetos totalmente novos apresentam ciclos de implantação mais longos e maior incerteza sobre o início da produção.
Argentina, Chile, Brasil e Equador estão entre os países que procuram ampliar sua capacidade de atrair investimentos para o setor. A Argentina vem enquadrando projetos no Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI), enquanto o Chile trabalha em reformas no sistema de licenciamento. O Brasil busca fortalecer sua estratégia para minerais críticos, e o Equador tenta reabrir espaço para novas concessões.
A disputa pelos recursos minerais latino-americanos também envolve interesses de grandes potências. Em setembro, a A Referência mostrou que a Coreia do Sul está ampliando sua aproximação com países da Ásia Central justamente para garantir acesso a minerais críticos e reduzir riscos em suas cadeias de fornecimento.
Na América Latina, o interesse externo também se manifesta diretamente. Os Estados Unidos, por exemplo, buscam ampliar o acesso de empresas americanas aos recursos minerais da Venezuela, incluindo o ouro, em uma estratégia que também procura limitar a influência chinesa sobre os recursos estratégicos do país.
O Peru continua sendo um importante destino para investimentos em cobre, mas conflitos sociais e questões de segurança podem alterar cronogramas e custos. O Chile também permanece entre os principais destinos do capital destinado ao cobre, embora a duração dos processos de aprovação possa influenciar as prioridades das empresas.
Um dos exemplos mais conhecidos é Las Bambas, no Peru. A mina acumula mais de 700 dias de bloqueios em seu corredor de transporte desde o início da produção comercial, em 2016. A Referência já abordou conflitos envolvendo a operação e comunidades andinas que reivindicam terras afetadas pela instalação e expansão da mina.
Segundo a AMI, as paralisações de Las Bambas provocaram perdas estimadas em aproximadamente US$ 9,5 milhões por dia, com base em estimativas citadas por uma consultoria ligada ao sindicato mineiro peruano.
John Price, codiretor da área de mineração e gestão de riscos da AMI, relacionou parte dos conflitos à alteração no sistema de transporte do concentrado de cobre. O plano original previa o uso de um mineroduto até Cusco, mas o projeto foi abandonado depois que a MMG adquiriu Las Bambas. O concentrado passou então a ser transportado por caminhões através de comunidades.
Para a AMI, o monitoramento antecipado de ameaças comunitárias, políticas, regulatórias e de segurança pode reduzir custos, já que os diferentes tipos de risco frequentemente se sobrepõem.
Os especialistas consultados avaliam que a América Latina continua diante de uma oportunidade de ampliar a mineração, mas a disponibilidade de recursos minerais, por si só, não determinará onde ocorrerá a próxima onda de investimentos.
Infraestrutura, previsibilidade regulatória, segurança, acesso a financiamento e capacidade de estabelecer relações duradouras com comunidades também influenciam as decisões das empresas.
A região possui algumas das maiores reservas mundiais de minerais estratégicos e continua atraindo investidores interessados em cobre, lítio, ouro e outros recursos. O desafio está em transformar esse potencial geológico em projetos que possam avançar dentro de prazos e condições previsíveis.